quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Barrigudos

Barrigudos
Eu não senti na pele a ditadura. Cheguei à Madeira em 1980. Mas contam os meus pais que na altura do fascismo existia na Madeira uma grande maioria que passava fome a todos os níveis (fome de alimento, fome de vestuário, fome de conhecimento e fome de bem estar) e que viviam para se auto sustentar e para servir uma minoria rica e bem abastada. O povo do campo, na altura, vivia e sofria para sustentar uma minoria de barrigudos da cidade e das vilas. O Sr. Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte) já cantava no início do Séc. XX: Vejo quatro comarcas, atacadas de senhores, todos de barriga grande à espera dos lavradores. Eu sou herdeiro dessa pobreza e não me queixo. Mas os que sofreram com a ditadura merecem um pedido de desculpa (os que já morreram e os que ainda estão vivos) de todos aqueles que os espezinharam ao longo de muitos anos. Merecem também um pedido de desculpa daqueles que elegeram Oliveira Salazar como o maior português de sempre. Esta longa introdução para dizer o seguinte: o problema para resolver no dia 6 de Maio com a eleição de um novo governo regional é também o problema da minoria dos senhores barrigudos, dos senhores de barriga grande à espera dos madeirenses. E esses senhores de barriga grande não estão somente lá no continente, estão também cá no meio de nós e cujas caras a maioria da população madeirense não conhece. São barrigudos e sem rosto. Abram bem os olhos! ...

Bernardino Côrte

Tia Zulmira

Palmira De Jesus (nome fictício)

Há pouco tempo, perto da casa dos oitenta anos, uma nossa tia faleceu. Não resistiu aos problemas respiratórios/circulatórios que "tomaram de assalto", nos frios dias do Natal e do Fim de Ano, o frágil corpo característico da terceira idade.
Na altura do nascimento do Samir (nome fictício), em Março de 2006, estivera hospitalizada devido aos mesmos problemas. Ela num andar, ele (Samir) no andar de cima. Não se conheceram dessa vez. Os médicos na altura prepararam os filhos para o pior. Milagrosamente recuperou e voltou para casa. Esquecime-me de dizer: era uma mulher de grande e forte Fé.
Passados nove meses aproximadamente, partiu para junto do Pai, como disse o seu filho Padre Antúnes De Jesus (nome fictício), na celebração da comovente e nostálgica ceremónia fúnebre. Ao ouvi-lo falar da Mãe com tanto carinho e consideração, invadiu-me, naquele momento, uma emoção (um anjo disse-me posteriormente que essa emoção era Amor melancólico) que me atravessou a espinha e que me fez correr lágrimas no rosto. Naquele momento de meditação conjunta um pensamento fixou o meu olhar no horizonte prendendo-me a atenção por alguns segundos: o Amor existe em lugares e em modos de vida que não nos passam pela cabeça. Longe dos palcos da fama, da riqueza das jóias, da superabundância dos centros comerciais, da complexidade atordoante de vida. Longe do mundo agitado e agradável à vista, que por vezes nos cega e seduz, outras vezes nos frustra, existem lugares onde o Amor é apenas pacatez, simplicidade e humildade. Um filho padre, de braços dados com os seus irmãos, temperou a sua homilia com Amor modelando-o num momento único que o tempo provavelmente apagará mas que se eternizará na recordação dos presentes. Na minha memória está muito bem guardada e muito bem acautelada. Enaltecendo a pacatez, a humildade, a simplicidade e principalmente o seu poder na Fé, que foram os instrumentos que usou para se orientar e encaminhar filhos e netos, o seu filho padre deu um exemplo de espiritualidade personificada e encarnada na sua mãe. Espiritualidade que o homem, na actual complexidade da vida, teima teimosamente em relegar para um segundo plano. Também, nesse momento único divinizou sua Mãe pelo facto de ter feito um pacto com o Pai de forma a conceder-lhe o falecimento no Dia de Reis. Viveu e partiu para todo o sempre como uma rainha. Um exemplo a seguir, esta homenagem, por todos os filhos que andam por este mundo. Eu, como filho também gostaria imenso de algum dia ser capaz de fazer a mesma homenagem a minha mãe e ao meu pai.
Retomando o discurso inicial, nesse espaço de nove meses fizemos-lhe uma visita e ela acabou por conhecer o seu sobrinho neto Samir (nome fictício). Na altura disse que gostaria de vê-lo gatinhar. O tempo rapidamente passou e Ela "partiu" ..., o Samir ainda não gatinha. Era nossa intenção fazer-lhe uma visita, como também a outros parentes próximos na terceira idade, nas vésperas ou nas oitavas de Natal. A azáfama da quadra natalícia e do fim de ano adiou para todo o sempre essa visita, falta de tempo!
A falta de tempo foi também pretexto para uma visita que foi adiada também para todo o sempre. Na altura o saudoso cunhado Lourêncio (nome fictício) internado em fase terminal, travava uma batalha para a sobrevivência. Eu muito ocupado nas minhas lides fiz-lhe a afronta de não lhe dar um último aperto de mão. Tenho a certeza que estou perdoado desta desfeita esteja ele onde estiver neste momento.
A falta de tempo foi novamente pretexto para não fazer a última visita e para não ir ao funeral da madrasta do meu pai. Visita e homenagem adiadas também para todo o sempre. Tenho a certeza que esta afronta também já me foi perdoada.
Assim, um sentimento de culpa aparece de vez em quando e remoí tenuemente cá dentro. A consciência já aprendeu a gerir essas emoções passageiras não deixando abalar o equilíbrio emocional. A idade e consequente experiência de vida ensina-nos essas coisas banais. A experiência de vida ensina-nos que o tempo não volta atrás e que a aceitação e conformismo são uns dos melhores remédios naturais, que devemos procurar dentro de nos, para seguir em frente sem mágoas.
Todos nós temos familiares na terceira idade, Pai, Mãe, Tios, Tias, Primos, Primas, etc, por vezes em situações de sofrimento físico e/ou psicológico que nem imaginamos.
O tempo que "perdi" ao escrever estas linhas tem duas intenções. A primeira, partilhar convosco esta minha experiência. A segunda, sugerir-vos o seguinte: quando sentirem emoções a emergirem em vós que vós direccionam para um familiar, um amigo, um ente querido ou doente, algures por aí, alterem a vossa agenda (cheia de acções com certeza importantes, mas que podem ser adiadas para o dia seguinte) para fazerem a possível última visita. Se fazer a última visita significar fazer várias visitas, não importa, façam-nas! Porque quanto a última visita, essa não sabemos qual é.
Bernardino Côrte