Porque não a reforma aos 69?
(Publicada nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 01-03-2005)
Ao olhar para algumas muralhas e casas em pedra encontro nelas uma deixa do meu avô Manuel Cambado, pedreiro que trabalhou de sol a sol por quase toda a Ilha da Madeira a aparar, a aprumar, a alinhar o basalto bruto domesticado pelo marrão, pelo malho e pelo martelo (atenção, não sou comunista!). O mesmo não posso dizer da minha avó Henriqueta, já que a perenidade do material do seu ofício pouca deixa me legou, era costureira. Do meu avô Manuel Nabo, pedreiro também, apenas vejo alguma das coisas que fez no domesticar do basalto. Morreu, tinha eu três anos aproximadamente. Da minha avó paterna, Vitorina de Jesus, quase nada sei, morreu muito jovem, tinha meu pai três anitos. Da sua madrasta, avó Rosa, sei que trabalhava sol a sol nos afazeres domésticos e agrícolas para ajudar a sustentar 10 filhos, quatro dela e 6 da minha avó Vitorina. Quando a avó Rosa morreu não fui ao seu funeral, estava muito ocupado a trabalhar para o meu desejado “canudo”. Meu avô Manuel Cambado morreu com 81 anos. A minha avó Henriqueta morreu com 89 anos. Meu avô Manuel Nabo morreu com 70 anos provavelmente, não sei precisar a idade. A minha avó Vitorina morreu jovem. A minha avó Rosa não chegou aos noventa. Manifesto assim o respeito e admiração dos meus queridos entes da terceira idade (foi assim que os conheci, na terceira idade) e serve como aperitivo para o péssimo cozinhado que vem aí dos dois maiores partidos políticos do nosso pais: combater a “evasão fiscal” dos idosos, prolongando, prolongando, prolongando… Fiquei desiludido com as ideias do José Sócrates e do Santana Lopes em prolongar a vida activa e a idade da reforma para os 68 anos. Ou será 70? Desiludido porque a terceira idade, aquela que conheço, merece ser respeitada e já trabalhou o suficiente, provavelmente mais do que devia. A terceira idade não pode ser o bode expiatório da má gestão da segurança social nos últimos anos e da ineficácia no combate à evasão fiscal. Não obriguem a terceira idade a morrer a trabalhar para remendar o tão falado défice que sinceramente já não convence ninguém, lambuzado e sem sabor de tanto ser usado para justificar o injustificável! Obriguem sim, os oportunistas sem consciência social a pagarem o que devem! Estou disponível (atenção mais uma vez, não sou comunista!), e provavelmente muitos portugueses, para abdicar de aumento salarial pelos anos que quiserem desde que me seja dada a garantia que os avós portugueses terão uma reforma digna.
J. B. Corte
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Passagem estreita
Passagem estreita
(publicada nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 17-10-2007)
Existe uma passagem muita estreita nos acessos ao ensino superior pela qual todos os candidatos querem passar. Uns passam, outros ficam para atrás. É legítimo aspirar essa passagem e um direito por ela passar. Já não é legítimo e justo engendrar estratégias de variadíssimos gostos e feitios para passar à frente dos outros e posicionar-se em lugares privilegiados de forma a tornar essa passagem mais fácil. Todos os candidatos estão em pé de igualdade nas regras de acesso aos cursos superiores. As regras baseiam-se em quantificações, em números, que resultam de um longo, variado e complexo processo de avaliação ao longo dos três anos do ensino secundário (e não só). Até aqui tudo bem. Mas, como se chega à quantificação do mérito de um ser humano? Como se chega a esses números que servirão para deixar passar ou não os candidatos pela porta estreita do acesso ao ensino superior? Essa quantificação do mérito está a ser coerente e justa de forma a que todos os candidatos estejam numa mesma situação de qualidade? Essa quantificação é coerente com o perfil que se espera de um aluno no final do ensino secundário? Essa quantificação é justa tendo em conta a diversidade de disciplinas, de corpo docente, de processos avaliativos, de projectos educativos, etc? A avaliação não é fácil e quem anda nestes terrenos da educação sabe-o muito bem. Na avaliação a isenção absoluta é uma utopia mas na medida do possível a avaliação deverá ser consciente, justa, imparcial. Aspirar e conquistar números altos é legítimo. Consegui-los por uma necessidade obsessiva compulsiva, sem olhar a meios, turva a visão da consciência de quem é avaliado e consequentemente de quem avalia. Surgem já focos deste fenómeno que considero serem sintomas de uma doença humana e socialmente degradante: a obsessão compulsiva por médias altas. Essa obsessão pelos números altos que paira no ar nas secundárias, como um vírus a procura de um corpo para se instalar, é contagiante e poderá ser (ou já o é) um novo problema a resolver por todos os intervenientes no processo educativo. Ouve-se da boca do povo maldizente e inconsciente que a obsessão compulsiva por notas altas infesta já escolas conceituadas. Ouve-se da boca do povo maldizente e inconsciente que, pontualmente já se encomenda, compra ou plagia um bom projecto para se obter uma boa classificação em determinadas áreas curriculares. Os entendidos no assunto dizem que não são encomendas, compras, nem plágios mas sim parcerias que beneficiam alunos, privados e instituições envolvidas. O povo maldizente e inconsciente diz que não é uma generalização mas insiste que existem casos pontuais, insiste que a luta no campo de batalha do acesso às notas altas é desleal e insiste que alcançar uma boa classificação é bem mais fácil para uns do que para outros. Tendo o povo maldizente e inconsciente razão estamos perante sinais de decadência moral. Outrora dizia o povo maldizente e inconsciente que existia por aí certificados falsos.. Outrora o tempo foi passando até que alguém se lembrou de bater na mesa e dizer basta! O tempo deu razão ao povo maldizente e inconsciente: o caso dos certificados falsos, de uma maneira certa ou errada, acabou em tribunal. Espero que o povo maldizente e inconsciente desta vez não tenha razão quanto ao facilitismo às notas altas. Se o povo maldizente e inconsciente tiver razão, essa razão é um alerta sério aos intervenientes nesta matéria, e é razão suficiente para pôr em causa a credibilidade do sistema educativo e a credibilidade do acesso ao ensino superior.
J. B. Côrte
(publicada nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 17-10-2007)
Existe uma passagem muita estreita nos acessos ao ensino superior pela qual todos os candidatos querem passar. Uns passam, outros ficam para atrás. É legítimo aspirar essa passagem e um direito por ela passar. Já não é legítimo e justo engendrar estratégias de variadíssimos gostos e feitios para passar à frente dos outros e posicionar-se em lugares privilegiados de forma a tornar essa passagem mais fácil. Todos os candidatos estão em pé de igualdade nas regras de acesso aos cursos superiores. As regras baseiam-se em quantificações, em números, que resultam de um longo, variado e complexo processo de avaliação ao longo dos três anos do ensino secundário (e não só). Até aqui tudo bem. Mas, como se chega à quantificação do mérito de um ser humano? Como se chega a esses números que servirão para deixar passar ou não os candidatos pela porta estreita do acesso ao ensino superior? Essa quantificação do mérito está a ser coerente e justa de forma a que todos os candidatos estejam numa mesma situação de qualidade? Essa quantificação é coerente com o perfil que se espera de um aluno no final do ensino secundário? Essa quantificação é justa tendo em conta a diversidade de disciplinas, de corpo docente, de processos avaliativos, de projectos educativos, etc? A avaliação não é fácil e quem anda nestes terrenos da educação sabe-o muito bem. Na avaliação a isenção absoluta é uma utopia mas na medida do possível a avaliação deverá ser consciente, justa, imparcial. Aspirar e conquistar números altos é legítimo. Consegui-los por uma necessidade obsessiva compulsiva, sem olhar a meios, turva a visão da consciência de quem é avaliado e consequentemente de quem avalia. Surgem já focos deste fenómeno que considero serem sintomas de uma doença humana e socialmente degradante: a obsessão compulsiva por médias altas. Essa obsessão pelos números altos que paira no ar nas secundárias, como um vírus a procura de um corpo para se instalar, é contagiante e poderá ser (ou já o é) um novo problema a resolver por todos os intervenientes no processo educativo. Ouve-se da boca do povo maldizente e inconsciente que a obsessão compulsiva por notas altas infesta já escolas conceituadas. Ouve-se da boca do povo maldizente e inconsciente que, pontualmente já se encomenda, compra ou plagia um bom projecto para se obter uma boa classificação em determinadas áreas curriculares. Os entendidos no assunto dizem que não são encomendas, compras, nem plágios mas sim parcerias que beneficiam alunos, privados e instituições envolvidas. O povo maldizente e inconsciente diz que não é uma generalização mas insiste que existem casos pontuais, insiste que a luta no campo de batalha do acesso às notas altas é desleal e insiste que alcançar uma boa classificação é bem mais fácil para uns do que para outros. Tendo o povo maldizente e inconsciente razão estamos perante sinais de decadência moral. Outrora dizia o povo maldizente e inconsciente que existia por aí certificados falsos.. Outrora o tempo foi passando até que alguém se lembrou de bater na mesa e dizer basta! O tempo deu razão ao povo maldizente e inconsciente: o caso dos certificados falsos, de uma maneira certa ou errada, acabou em tribunal. Espero que o povo maldizente e inconsciente desta vez não tenha razão quanto ao facilitismo às notas altas. Se o povo maldizente e inconsciente tiver razão, essa razão é um alerta sério aos intervenientes nesta matéria, e é razão suficiente para pôr em causa a credibilidade do sistema educativo e a credibilidade do acesso ao ensino superior.
J. B. Côrte
domingo, 20 de abril de 2008
Ab’lemla Adolf
Simão, dá a outra face!
Numa herdade, algures na terra de Caleso, a agitação entre os servos, despertada pelo descontentamento do servo Simão, irou o soberano dono da herdade, o Senhor Ab’lemla Adolf. O servo Simão inconformado com o favorecimento de uns em detrimento de outros ousou pedir uma audiência ao seu senhor e foi pedir-lhe explicações.
Simão – Senhor, porquê não me concedeis um dia de folga como concedeste à Ogaim?
Ab’lemla Adolf – Semeias a desordem entre os servos da herdade e ainda tens a ousadia de contestar as minhas decisões. Mas, mesmo assim dar-te-ei a resposta para pôr uma pedra sobre o assunto: porque és desobediente e a desobediência tem de ser castigada!
Simão - Mas Ogaim é também desobediente e concedeste-lhe 1 dia de folga!
Ab’lemla Adolf - Ogaim controla os seus instintos, sabe o que diz e sabe medir as palavras que profere.
Simão – Então, castiga-me por dizer o que sinto? Castigas-me por não proferir palavras do teu agrado?
Ab’lemla Adolf – Ogaim é filho de Jissá, meu primo. Tu Simão, és filho de O’cisnarf grande inimigo do meu pai.
Simão – Então castiga-me também por ser filho do inimigo do seu pai?
Ab’lemla Adolf – É o preço que tens de pagar pela ousadia do teu pai em ter desafiado no passado o grande A’talab, dono primeiro desta herdade.
Simão - Mas, o ódio entre O’cisnarf e A’atab foi sanado com o juramento de paz entre ambos perante Larcos Domeca, nosso guia espiritual!
Ab’lemla Adolf – Larcos Domeca nada é perante a minha grandeza. Esse juramento de que falas não foi mais do que a aceitação da elevação da minha família e de todos aqueles em cujas veias corre o sangue dos meus ascendentes.
Simão – Mas …
Ab’lemla Adolf - Eu sou o Senhor, tu és o servo, deves-me obediência
Simão – Senhor, não tem faltado pasto às tuas ovelhas, nem vinho à tua mesa. Os teus manjares são ricos em produtos da tua herdade colhidos com o suor de todos os teus servos. Porquê tratais alguns servos de forma diferente?
Ab’lemla Adolf – Afrontas-me com a tua insistência. Obrigas-me a castigar-te com 7 dias de trabalho por semana sem nenhum benefício em troca!
Ab’lemla Adolf – Aceita a tua condição, não semeies a discórdia entre os teus companheiros de trabalho. A tua desobediência é intolerável e não te esqueças, deves-me subordinação!
Simão, admitindo a sua impotência reivindicativa perante a frieza do seu Senhor, abandonou, passados alguns dias, a herdade e nunca mais foi visto.
P.S: dedicado a todos os Ab’lemlas Adolfs da nossa terra!
José Bernardino Gonçalves da Côrte
Numa herdade, algures na terra de Caleso, a agitação entre os servos, despertada pelo descontentamento do servo Simão, irou o soberano dono da herdade, o Senhor Ab’lemla Adolf. O servo Simão inconformado com o favorecimento de uns em detrimento de outros ousou pedir uma audiência ao seu senhor e foi pedir-lhe explicações.
Simão – Senhor, porquê não me concedeis um dia de folga como concedeste à Ogaim?
Ab’lemla Adolf – Semeias a desordem entre os servos da herdade e ainda tens a ousadia de contestar as minhas decisões. Mas, mesmo assim dar-te-ei a resposta para pôr uma pedra sobre o assunto: porque és desobediente e a desobediência tem de ser castigada!
Simão - Mas Ogaim é também desobediente e concedeste-lhe 1 dia de folga!
Ab’lemla Adolf - Ogaim controla os seus instintos, sabe o que diz e sabe medir as palavras que profere.
Simão – Então, castiga-me por dizer o que sinto? Castigas-me por não proferir palavras do teu agrado?
Ab’lemla Adolf – Ogaim é filho de Jissá, meu primo. Tu Simão, és filho de O’cisnarf grande inimigo do meu pai.
Simão – Então castiga-me também por ser filho do inimigo do seu pai?
Ab’lemla Adolf – É o preço que tens de pagar pela ousadia do teu pai em ter desafiado no passado o grande A’talab, dono primeiro desta herdade.
Simão - Mas, o ódio entre O’cisnarf e A’atab foi sanado com o juramento de paz entre ambos perante Larcos Domeca, nosso guia espiritual!
Ab’lemla Adolf – Larcos Domeca nada é perante a minha grandeza. Esse juramento de que falas não foi mais do que a aceitação da elevação da minha família e de todos aqueles em cujas veias corre o sangue dos meus ascendentes.
Simão – Mas …
Ab’lemla Adolf - Eu sou o Senhor, tu és o servo, deves-me obediência
Simão – Senhor, não tem faltado pasto às tuas ovelhas, nem vinho à tua mesa. Os teus manjares são ricos em produtos da tua herdade colhidos com o suor de todos os teus servos. Porquê tratais alguns servos de forma diferente?
Ab’lemla Adolf – Afrontas-me com a tua insistência. Obrigas-me a castigar-te com 7 dias de trabalho por semana sem nenhum benefício em troca!
Ab’lemla Adolf – Aceita a tua condição, não semeies a discórdia entre os teus companheiros de trabalho. A tua desobediência é intolerável e não te esqueças, deves-me subordinação!
Simão, admitindo a sua impotência reivindicativa perante a frieza do seu Senhor, abandonou, passados alguns dias, a herdade e nunca mais foi visto.
P.S: dedicado a todos os Ab’lemlas Adolfs da nossa terra!
José Bernardino Gonçalves da Côrte
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Virus Caloteirus
O Vírus QTFSPN (Quer Tudo Feito Sem Pagar Nada) vulgarmente chamado de Vírus Caloteirus está a contaminar a nossa sociedade. O alerta é dado pelos DMP (Defensores da Moral Perdida). Inicialmente poucos eram os infectados com este vírus. Por não terem sido tomadas medidas na altura do seu aparecimento, em que os infectados se contavam pelos dedos das mãos, a infecção alastrou-se pela maioria da população adulta madeirense. Estudos científicos descobriram que é uma doença moral, por isso difícil de detectar a olho nu. Só quem entra em contacto directo com o vírus é que sente na pele as suas consequências. Algumas crianças já apresentam alguns sintomas desta "gripe" do Vírus Caloteirus QTFSPN. A epidemia está longe de ser controlada. A doença dificilmente tem cura porque a palavra arrependimento e justiça não constam no vocabulário dos infectados pelos Vírus Caloteirus QTFSPN. A vacina está a ser estudada por uma comissão constituída por membros da Secretaria Regional de Educação, do Ministério da Justiça, por membros de vários credos religiosos e por filósofos credenciados da sociedade madeirense. Destaca-se a presença do Ministério da Justiça nesta comissão visto que o combate a este vírus, socialmente perigoso e de consequências sociais imprevisíveis a médio e longo prazo, é de extrema importância, já que a legislação actual não prevê estas situações. Segundo o representante do Ministério da Justiça, Dr. Decidério Rapidoroso, existe uma lacuna legislativa sobre esta ilegalidade instalada. O vírus ataca por contágio daquilo que psicologicamente é designado por imitação/inveja (se ele consegue eu também, se ele tem eu também posso ter) Os sintomas são entre muitos outros: encomendar um móvel e não pagar, fazer obras em casa e não pagar; comprar na mercearia e não pagar. Portanto, o denominador comum desta "praga" é a decisão premeditada: Não pagar. Os especialistas garantem que o vírus já sofreu uma mutação, existindo já uma estirpe proliferada em que os sintomas se apresentam associados às promessas não cumpridas. O denominador comum dos sintomas desta nova estirpe é a intenção premeditada: não cumprir. A doença nas suas variantes resume-se a pedir serviços ou proferir promessas e não as pagar nem as cumprir. Utilizam a palavra como contrato com a intenção maliciosa de não cumprir o contrato verbal estabelecido. Ataca todas as classes sociais e o DMP alerta para o perigo de extinção do valor da Palavra. Consequências nas vítimas destes doentes: depressões; famílias com dificuldades financeiras; prostituição; penhoras; dificuldades em pagar a conta da luz, água, gás; ajuste de contas; agressões; homicídios; suicídios… Portanto, a todos aqueles que têm o poder e os meios para combater esta "epidemia" estejam atentos, muito atentos: actuem e não se deixem contagiar.
José Bernardino Gonçalves da Côrte
(Publicado no Diário de Notícias em 25 de Novembro de 2005)
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Bronze e cosmética
Não há bronze nem cosmética
Que oculte a beleza
Que os outros insistem,
Insistentemente,
Em não querer ver.
Não há bronze nem cosmética
Que feche os olhos da alma
Que os outros insistem,
Insistentemente,
Em fechar.
Não há bronze nem cosmética
Que oculte a beleza do teu ser
Que os outros insistem,
Insistentemente,
Em não querer ver
E que tu insistes,
Insistentemente, em esconder.
Bernardino Côrte
Não há bronze nem cosmética
Que oculte a beleza
Que os outros insistem,
Insistentemente,
Em não querer ver.
Não há bronze nem cosmética
Que feche os olhos da alma
Que os outros insistem,
Insistentemente,
Em fechar.
Não há bronze nem cosmética
Que oculte a beleza do teu ser
Que os outros insistem,
Insistentemente,
Em não querer ver
E que tu insistes,
Insistentemente, em esconder.
Bernardino Côrte
AS PORTAS FECHADAS
Embirrei!
Fecharam-me a porta.
Não me deixaram passar
Para o outro lado
Que queria experimentar.
Um Anjo disse-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.
Por não ter experimentado
O outro lado
Embirrei e fiquei amuado.
Voltei a embirrar
Por me fecharem a porta
Do outro lado
Que queria chegar
Para me mostrar.
O Anjo, paciente, disse-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.
Por não me ter mostrado
No outro lado
Embirrei e fiquei amuado.
Teimosamente embirrei,
Novamente,
Por me fecharem a porta
Do outro lado
Que queria chegar
Para me saciar.
O Anjo voltou a dizer-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.
Por não me ter saciado
No outro lado
Embirrei e fiquei amuado.
Revelou-me o Anjo posteriormente
Que cada porta fechada
Salvou-me da alhada
Da tentação provada,
Da experiência letal,
Da vaidade desvairada,
E da fartura fatal.
Por cada porta fechada
Abriu-me o Anjo uma janela
Para que sereno e contente
Pudesse ver diferente.
Agora, calmamente à janela,
Sensatamente pensando,
Vejo experiências luxuriantes,
Vaidades exaltadas,
Farturas nauseantes,
Como coisas distantes
Que do outro lado das portas
Me tentavam.
Obrigado Anjo
Por me teres iluminado
E guardado das tentações
Que tentam e pulsam nos corações.
Bernardino Côrte
Embirrei!
Fecharam-me a porta.
Não me deixaram passar
Para o outro lado
Que queria experimentar.
Um Anjo disse-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.
Por não ter experimentado
O outro lado
Embirrei e fiquei amuado.
Voltei a embirrar
Por me fecharem a porta
Do outro lado
Que queria chegar
Para me mostrar.
O Anjo, paciente, disse-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.
Por não me ter mostrado
No outro lado
Embirrei e fiquei amuado.
Teimosamente embirrei,
Novamente,
Por me fecharem a porta
Do outro lado
Que queria chegar
Para me saciar.
O Anjo voltou a dizer-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.
Por não me ter saciado
No outro lado
Embirrei e fiquei amuado.
Revelou-me o Anjo posteriormente
Que cada porta fechada
Salvou-me da alhada
Da tentação provada,
Da experiência letal,
Da vaidade desvairada,
E da fartura fatal.
Por cada porta fechada
Abriu-me o Anjo uma janela
Para que sereno e contente
Pudesse ver diferente.
Agora, calmamente à janela,
Sensatamente pensando,
Vejo experiências luxuriantes,
Vaidades exaltadas,
Farturas nauseantes,
Como coisas distantes
Que do outro lado das portas
Me tentavam.
Obrigado Anjo
Por me teres iluminado
E guardado das tentações
Que tentam e pulsam nos corações.
Bernardino Côrte
terça-feira, 15 de abril de 2008
Estás revoltado com Ele?
Estás revoltado com Ele?
Estás revoltado com Deus? Porquê? Porque existe fome, injustiças e violência no Mundo? Será Deus o culpado? A alma ousou experimentar associar-se à matéria. O Homem, com o pecado original, deixou de viver no paraíso e desceu a um nível inferior, deixou de estar na dimenssão de Deus e passou a estar entregue a si mesmo encarnado na dimensão da matéria. Neste estado do homem, Deus pouco pode fazer para actuar na mescla das suas emoções, pensamentos e acções (EPA). Deus deixou de ter qualquer domínio sobre essa mescla que faz do homem o que é. Raras excepções, procura aproximar-se, estabelecendo um canal de contacto com alguns. Os iluminados que O procuram parecem ser os distinguidos. Mas, Deus na maior parte das vezes, apenas dá sinais numa tentativa ténue de dar dicas para poder influir nos Homens qualquer coisa de bom. Só que o homem tem andado distraído e não tem visto esses sinais. Basta olhar à nossa volta e ver a fome, as injustiças e a violência no Mundo. Deus não é matéria, não pode falar com o homem, não o pode tocar, não lhe pode dar uma palmada nas costas, mas contacta de formas estranhas e subtis que passam despercebidas para os distraídos. No seu estado superior contempla apenas a Sua obra humana, chorando quando o Homem é mísero, rejubilando-se quando o Homem é sadio. Pouco mais pode fazer por ele. Ao passar a estar entregue a si mesmo, o Homem tem de trilhar o seu caminho, saciando os seus instintos, abastar-se das coisas que precisa para viver, procurar as verdades e tentar a deificação do seu ser para viver em paz consigo e com os outros. Com a sua liberdade na matéria, terá de provar que é capaz de viver em harmonia consigo próprio, com os outros e com o mundo material que o acolheu. Como faz estas coisas banais do jogo da vida depende exclusivamente dele, Deus apenas contempla. A nossa passagem por cá é uma aprendizagem, na qual o homem tem de aprender por si só, entalhando as suas emoções, aparando os pensamentos e pincelando a sua alma com as lições de que necessita para viver em paz e em harmonia consigo e com o mundo, e em paz com a incógnita da eternidade. Acredita, que estar em paz com a incógnita da eternidade é essencial para a vivência plena na matéria. Arriscas o teu bem estar pleno, duvidando da incógnita da eternidade? Aproveita a estadia nesta aprendizagem na matéria para dissipar as tuas dúvidas. Nesta aprendizagem não há conteúdos para decorar, programas para cumprir, fórmulas para aplicar, testes marcados para resolver e nem professor para orientar e transmitir conhecimentos. O Homem está entregue a si próprio e Deus apenas contempla. O Homem é o aluno nesta aprendizagem da vida. Tudo é feito ao ritmo de cada aluno e segundo a vontade de cada um: cabe a cada um escolher. Cristo passou por cá e deu ao Homem o seu exemplo de como deve fazer a sua caminhada aqui no mundo da matéria. O Homem aprendeu? E tu aprendeste? Eu vou tentando aprender, mas não sei se estou aprendendo, é muito difícil. Esta coisa de acreditar ou não em Deus, de ser ateu ou crente, é como um jogo para o qual o homem é atirado sem saber, cujas regras não conhece e no qual terá de dar o seu melhor para viver em paz. A vida é o referido jogo e o homem nada sabe sobre as suas regras. Imagina alguém que entra num jogo de futebol sem saber dar um pontapé numa bola e sem conhecer as regras do futebol. O que lhe acontece? Inicialmente andará perdido sem saber o que fazer, mas Deus esta a torcer por ele. O jogo é a vida e Deus é o público. O homem nesse jogo tem apenas 90 minutos para aprender a pontapear, a cabecear, a aprender as regras do jogo, a aprender a jogar em equipa e com a sua equipa. Deus assiste ao jogo em directo, não está no estádio em tempo real, mas torce por ele e pouco pode fazer para alterar os factos do jogo. O Homem empolgar-se-á se souber que alguém o observa, lhe dá apoio e o incentiva a dar o seu melhor, e aqui está uma das diferenças em se ser ateu ou crente. Tal como o jogador de futebol que se empolga com um estádio cheio de gente a apoiá-lo, o Homem empolga-se por saber que Ele está algures a apoià-lo também, mas que pouco pode fazer pela matéria que é. Esse empolgamento que dá segurança, vida à vida e sentido a essa mescla das MPA é a energia que liga todos os circuitos do ser para a espiritualidade. É a energia espiritual em nós a que chamamos fé. Quando O tentamos encontrar, esse empolgamento é a chama que diferencia um crente de um ateu. Como encontrá-Lo? Quais os canais de contacto? Os canais accionados pela mansidão das EPA e pela energia da crença. Como e quando? Quando se vive em paz, em comunhão com o mundo e com a eternidade, na compaixão pelo próximo e por si mesmo. Quando se compreende e perdoa o inimigo, dando-lhe a outra face, quando se dá sem esperar nada em troca, quando se usa o poder que se tem para apenas servir o próximo, quando faz da sua riqueza a felicidade dos outros, e quando se fazem coisas simples que aos olhos dos distraídos são coisas banais e por vezes ilógicas. A mescla das EPA apaziguada e em processo de deificação encurta a distância até Ele. Quanto mais próximo, mais paz consigo mesmo e mais paz no mundo. Quando essa aproximação se consumar, compreenderàs que a fome, as injustiças e a violência no Mundo são consequências da teimosia do Homem em se achar exclusivamente pó e sem necessidade de deificação. Será Deus o responsável pelas misérias no mundo? Se existe fome, injustiças e violência no Mundo, é porque o homem se afastou da sua essência espiritual, esqueceu os exemplos de Cristo, o exemplo de todos os Santos que por cá passaram e deixaram o seu exemplo, e o exemplo das pessoas santas que estão despercebidamente à nossa volta, no nosso quotidiano material. Tens 90 minutos de jogo para Deificar o pó que és. Quantos minutos já levas dos 90 minutos do jogo da vida? Já aprendeste a pontapear e a cabecear a bola? Já aprendeste a jogar em equipa e com a tua equipa? Já aprendeste a respeitar a equipa adversária que também tem 90 minutos para aprender essas regras do jogo? Achas que vais conseguir ganhá-lo e abraçar o teu adversário? Ele nada pode fazer por ti, és matéria em deificação. Acabar com a fome, as injustiças e a violência no Mundo depende apenas de ti.
José Bernardino Gonçalves da Côrte
Estás revoltado com Deus? Porquê? Porque existe fome, injustiças e violência no Mundo? Será Deus o culpado? A alma ousou experimentar associar-se à matéria. O Homem, com o pecado original, deixou de viver no paraíso e desceu a um nível inferior, deixou de estar na dimenssão de Deus e passou a estar entregue a si mesmo encarnado na dimensão da matéria. Neste estado do homem, Deus pouco pode fazer para actuar na mescla das suas emoções, pensamentos e acções (EPA). Deus deixou de ter qualquer domínio sobre essa mescla que faz do homem o que é. Raras excepções, procura aproximar-se, estabelecendo um canal de contacto com alguns. Os iluminados que O procuram parecem ser os distinguidos. Mas, Deus na maior parte das vezes, apenas dá sinais numa tentativa ténue de dar dicas para poder influir nos Homens qualquer coisa de bom. Só que o homem tem andado distraído e não tem visto esses sinais. Basta olhar à nossa volta e ver a fome, as injustiças e a violência no Mundo. Deus não é matéria, não pode falar com o homem, não o pode tocar, não lhe pode dar uma palmada nas costas, mas contacta de formas estranhas e subtis que passam despercebidas para os distraídos. No seu estado superior contempla apenas a Sua obra humana, chorando quando o Homem é mísero, rejubilando-se quando o Homem é sadio. Pouco mais pode fazer por ele. Ao passar a estar entregue a si mesmo, o Homem tem de trilhar o seu caminho, saciando os seus instintos, abastar-se das coisas que precisa para viver, procurar as verdades e tentar a deificação do seu ser para viver em paz consigo e com os outros. Com a sua liberdade na matéria, terá de provar que é capaz de viver em harmonia consigo próprio, com os outros e com o mundo material que o acolheu. Como faz estas coisas banais do jogo da vida depende exclusivamente dele, Deus apenas contempla. A nossa passagem por cá é uma aprendizagem, na qual o homem tem de aprender por si só, entalhando as suas emoções, aparando os pensamentos e pincelando a sua alma com as lições de que necessita para viver em paz e em harmonia consigo e com o mundo, e em paz com a incógnita da eternidade. Acredita, que estar em paz com a incógnita da eternidade é essencial para a vivência plena na matéria. Arriscas o teu bem estar pleno, duvidando da incógnita da eternidade? Aproveita a estadia nesta aprendizagem na matéria para dissipar as tuas dúvidas. Nesta aprendizagem não há conteúdos para decorar, programas para cumprir, fórmulas para aplicar, testes marcados para resolver e nem professor para orientar e transmitir conhecimentos. O Homem está entregue a si próprio e Deus apenas contempla. O Homem é o aluno nesta aprendizagem da vida. Tudo é feito ao ritmo de cada aluno e segundo a vontade de cada um: cabe a cada um escolher. Cristo passou por cá e deu ao Homem o seu exemplo de como deve fazer a sua caminhada aqui no mundo da matéria. O Homem aprendeu? E tu aprendeste? Eu vou tentando aprender, mas não sei se estou aprendendo, é muito difícil. Esta coisa de acreditar ou não em Deus, de ser ateu ou crente, é como um jogo para o qual o homem é atirado sem saber, cujas regras não conhece e no qual terá de dar o seu melhor para viver em paz. A vida é o referido jogo e o homem nada sabe sobre as suas regras. Imagina alguém que entra num jogo de futebol sem saber dar um pontapé numa bola e sem conhecer as regras do futebol. O que lhe acontece? Inicialmente andará perdido sem saber o que fazer, mas Deus esta a torcer por ele. O jogo é a vida e Deus é o público. O homem nesse jogo tem apenas 90 minutos para aprender a pontapear, a cabecear, a aprender as regras do jogo, a aprender a jogar em equipa e com a sua equipa. Deus assiste ao jogo em directo, não está no estádio em tempo real, mas torce por ele e pouco pode fazer para alterar os factos do jogo. O Homem empolgar-se-á se souber que alguém o observa, lhe dá apoio e o incentiva a dar o seu melhor, e aqui está uma das diferenças em se ser ateu ou crente. Tal como o jogador de futebol que se empolga com um estádio cheio de gente a apoiá-lo, o Homem empolga-se por saber que Ele está algures a apoià-lo também, mas que pouco pode fazer pela matéria que é. Esse empolgamento que dá segurança, vida à vida e sentido a essa mescla das MPA é a energia que liga todos os circuitos do ser para a espiritualidade. É a energia espiritual em nós a que chamamos fé. Quando O tentamos encontrar, esse empolgamento é a chama que diferencia um crente de um ateu. Como encontrá-Lo? Quais os canais de contacto? Os canais accionados pela mansidão das EPA e pela energia da crença. Como e quando? Quando se vive em paz, em comunhão com o mundo e com a eternidade, na compaixão pelo próximo e por si mesmo. Quando se compreende e perdoa o inimigo, dando-lhe a outra face, quando se dá sem esperar nada em troca, quando se usa o poder que se tem para apenas servir o próximo, quando faz da sua riqueza a felicidade dos outros, e quando se fazem coisas simples que aos olhos dos distraídos são coisas banais e por vezes ilógicas. A mescla das EPA apaziguada e em processo de deificação encurta a distância até Ele. Quanto mais próximo, mais paz consigo mesmo e mais paz no mundo. Quando essa aproximação se consumar, compreenderàs que a fome, as injustiças e a violência no Mundo são consequências da teimosia do Homem em se achar exclusivamente pó e sem necessidade de deificação. Será Deus o responsável pelas misérias no mundo? Se existe fome, injustiças e violência no Mundo, é porque o homem se afastou da sua essência espiritual, esqueceu os exemplos de Cristo, o exemplo de todos os Santos que por cá passaram e deixaram o seu exemplo, e o exemplo das pessoas santas que estão despercebidamente à nossa volta, no nosso quotidiano material. Tens 90 minutos de jogo para Deificar o pó que és. Quantos minutos já levas dos 90 minutos do jogo da vida? Já aprendeste a pontapear e a cabecear a bola? Já aprendeste a jogar em equipa e com a tua equipa? Já aprendeste a respeitar a equipa adversária que também tem 90 minutos para aprender essas regras do jogo? Achas que vais conseguir ganhá-lo e abraçar o teu adversário? Ele nada pode fazer por ti, és matéria em deificação. Acabar com a fome, as injustiças e a violência no Mundo depende apenas de ti.
José Bernardino Gonçalves da Côrte
À Carreira
J. B. Côrte
À carreira
Data: 30-10-2007, Cartas do Leitor, Diário de Notícias da Madeira
Sábado, 27 de Outubro de 2007, uma agradável e diferente manhã. Via rápida desimpedida na entrada para Funchal. Deslocara-me à cidade para um simples exame médico marcado para as 10 horas na Casa de Saúde da Carreira. Num abrir e fechar de olhos estava já estacionado nas Arcadas de São Francisco. É muito agradável vir ao Funchal no sábado de manhã, faz esquecer a confusão de trânsito dos dias úteis. 9.30h, tempo mais que suficiente para levantar no Multibanco os 50 euros necessários para pagar o exame. E com um pouco de sorte sou atendido antes das 10 h e provavelmente 11 horas já estou em casa. Após a passagem pela primeira caixa de Multibanco a manhã que parecia ser calma e agradável passou a ser agitada. A correria começou. Andei à carreira por 10 caixas Multibanco, todas fora de serviço. Intrigado li num dos meus balões de pensamento: que raio se passa com os Multibancos? -mais tarde, vim a saber que se tratara de uma falha no sistema nacional. Ó raio! E agora? Como vou pagar o exame? Esperei 3 semanas para o fazer e neste preciso momento não tenho dinheiro para o pagar. O pessoal da Casa de Saúde da Carreira compreenderá a situação: faço o exame e pago-o depois afinal sou paciente assíduo da clínica, pensei eu. Exposta a situação à assistente, esta informou-me que era regra pagar antes da realização do exame. Insisti, mas respondeu-me que pouca coisa podia fazer, era o procedimento da casa. Passados alguns segundos pediu-me para esperar, iria tentar falar com o responsável do exame. A resposta chegou. Nada a fazer, é melhor marcar o exame para outra altura. Comecei a perceber que afinal não seria uma manhã de sábado tão agradável como pensara. Como não conseguia aceitar a ideia de voltar para a Ribeira Brava com o exame por fazer, insisti mas em vão: só pagando antecipadamente. O ar da sala começou a ficar quente e solicitei o livro de reclamações não para reclamar o atendimento (afinal a Srª assistente está a cumprir ordens) mas para reclamar o procedimento por achar uma deselegância exigir antecipadamente um pagamento e por achar que a situação poderia ser resolvida de outra maneira. O livro amarelo não estava disponível. Estava fechado num gabinete algures. Pois, era sábado e a clínica estava a funcionar a décimo gás. Passe aqui na segunda-feira para fazer a reclamação, disse-me. O quê?! Pensei eu em mais um balão de pensamento agora ofuscado e embaciado pelo calor: marquei um exame para um sábado de manhã de maneira a não faltar ao trabalho durante a semana, e agora sugerem-me faltar ao trabalho para fazer a reclamação. O ar da sala aqueceu ainda mais, o corpo começou a suar e as pernas a tremelicar. O ar condicionado não estava a funcionar, talvez por ser sábado e a casa estar a funcionar a décimo gás. Para evitar mais confusões saí da Casa de Saúde da Carreira inconformado, com calor, de mãos a abanar, teso e sem o exame. De volta para o estacionamento e de mãos a abanar comecei a ganhar consciência de que talvez não tivesse dinheiro também para pagar o estacionamento. Vasculhei no porta-moedas, nos bolsos e até nos boxers, tanta era a minha aflição: encontrei apenas 1.20 euros. Matutei, em mais um balão de pensamento a se diluir no ar quente da Rua da Carreira: o que me faltava para acabar "bem" esta manhã de sábado era o valor do estacionamento ser de 1.30 euros. E não é que foi mesmo, 1.30 euros de estacionamento! Senti-me perdido num deserto sem ninguém para me ajudar. Expliquei a situação ao Sr. da Tabacaria Arcadas São Francisco. Felizmente foi simpático e compreensível. Tirou 10 cêntimos do seu bolso e emprestou-mos. Passei a conhecê-lo e fiquei a dever-lhe mais do que 10 cêntimos. Paguei o estacionamento e fugi do Funchal à procura de ar fresco que já sentia ao ver as nuvens cinzentas no cume do Areeiro. E ainda bem que era sábado de manhã, sem trânsito cheguei rapidamente ao ar fresco. Contei-vos esta insignificante história para ilustrar como o dinheiro virtual por vezes é mesmo virtual e para nada nos serve. Serviu também para ilustrar a doentia mania de alguns profissionais em girar cegamente à volta dos cifrões não conseguindo libertar-se das doentias amarras do dinheiro que corrompem, por vezes, o saudável relacionamento entre as pessoas...
À carreira
Data: 30-10-2007, Cartas do Leitor, Diário de Notícias da Madeira
Sábado, 27 de Outubro de 2007, uma agradável e diferente manhã. Via rápida desimpedida na entrada para Funchal. Deslocara-me à cidade para um simples exame médico marcado para as 10 horas na Casa de Saúde da Carreira. Num abrir e fechar de olhos estava já estacionado nas Arcadas de São Francisco. É muito agradável vir ao Funchal no sábado de manhã, faz esquecer a confusão de trânsito dos dias úteis. 9.30h, tempo mais que suficiente para levantar no Multibanco os 50 euros necessários para pagar o exame. E com um pouco de sorte sou atendido antes das 10 h e provavelmente 11 horas já estou em casa. Após a passagem pela primeira caixa de Multibanco a manhã que parecia ser calma e agradável passou a ser agitada. A correria começou. Andei à carreira por 10 caixas Multibanco, todas fora de serviço. Intrigado li num dos meus balões de pensamento: que raio se passa com os Multibancos? -mais tarde, vim a saber que se tratara de uma falha no sistema nacional. Ó raio! E agora? Como vou pagar o exame? Esperei 3 semanas para o fazer e neste preciso momento não tenho dinheiro para o pagar. O pessoal da Casa de Saúde da Carreira compreenderá a situação: faço o exame e pago-o depois afinal sou paciente assíduo da clínica, pensei eu. Exposta a situação à assistente, esta informou-me que era regra pagar antes da realização do exame. Insisti, mas respondeu-me que pouca coisa podia fazer, era o procedimento da casa. Passados alguns segundos pediu-me para esperar, iria tentar falar com o responsável do exame. A resposta chegou. Nada a fazer, é melhor marcar o exame para outra altura. Comecei a perceber que afinal não seria uma manhã de sábado tão agradável como pensara. Como não conseguia aceitar a ideia de voltar para a Ribeira Brava com o exame por fazer, insisti mas em vão: só pagando antecipadamente. O ar da sala começou a ficar quente e solicitei o livro de reclamações não para reclamar o atendimento (afinal a Srª assistente está a cumprir ordens) mas para reclamar o procedimento por achar uma deselegância exigir antecipadamente um pagamento e por achar que a situação poderia ser resolvida de outra maneira. O livro amarelo não estava disponível. Estava fechado num gabinete algures. Pois, era sábado e a clínica estava a funcionar a décimo gás. Passe aqui na segunda-feira para fazer a reclamação, disse-me. O quê?! Pensei eu em mais um balão de pensamento agora ofuscado e embaciado pelo calor: marquei um exame para um sábado de manhã de maneira a não faltar ao trabalho durante a semana, e agora sugerem-me faltar ao trabalho para fazer a reclamação. O ar da sala aqueceu ainda mais, o corpo começou a suar e as pernas a tremelicar. O ar condicionado não estava a funcionar, talvez por ser sábado e a casa estar a funcionar a décimo gás. Para evitar mais confusões saí da Casa de Saúde da Carreira inconformado, com calor, de mãos a abanar, teso e sem o exame. De volta para o estacionamento e de mãos a abanar comecei a ganhar consciência de que talvez não tivesse dinheiro também para pagar o estacionamento. Vasculhei no porta-moedas, nos bolsos e até nos boxers, tanta era a minha aflição: encontrei apenas 1.20 euros. Matutei, em mais um balão de pensamento a se diluir no ar quente da Rua da Carreira: o que me faltava para acabar "bem" esta manhã de sábado era o valor do estacionamento ser de 1.30 euros. E não é que foi mesmo, 1.30 euros de estacionamento! Senti-me perdido num deserto sem ninguém para me ajudar. Expliquei a situação ao Sr. da Tabacaria Arcadas São Francisco. Felizmente foi simpático e compreensível. Tirou 10 cêntimos do seu bolso e emprestou-mos. Passei a conhecê-lo e fiquei a dever-lhe mais do que 10 cêntimos. Paguei o estacionamento e fugi do Funchal à procura de ar fresco que já sentia ao ver as nuvens cinzentas no cume do Areeiro. E ainda bem que era sábado de manhã, sem trânsito cheguei rapidamente ao ar fresco. Contei-vos esta insignificante história para ilustrar como o dinheiro virtual por vezes é mesmo virtual e para nada nos serve. Serviu também para ilustrar a doentia mania de alguns profissionais em girar cegamente à volta dos cifrões não conseguindo libertar-se das doentias amarras do dinheiro que corrompem, por vezes, o saudável relacionamento entre as pessoas...
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