quarta-feira, 16 de abril de 2008

AS PORTAS FECHADAS

Embirrei!
Fecharam-me a porta.
Não me deixaram passar
Para o outro lado
Que queria experimentar.

Um Anjo disse-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.

Por não ter experimentado
O outro lado
Embirrei e fiquei amuado.

Voltei a embirrar
Por me fecharem a porta
Do outro lado
Que queria chegar
Para me mostrar.

O Anjo, paciente, disse-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.

Por não me ter mostrado
No outro lado
Embirrei e fiquei amuado.

Teimosamente embirrei,
Novamente,
Por me fecharem a porta
Do outro lado
Que queria chegar
Para me saciar.


O Anjo voltou a dizer-me:
Porque hás de embirrar
Se as portas foram feitas
Para abrir e fechar.

Por não me ter saciado
No outro lado
Embirrei e fiquei amuado.

Revelou-me o Anjo posteriormente
Que cada porta fechada
Salvou-me da alhada
Da tentação provada,
Da experiência letal,
Da vaidade desvairada,
E da fartura fatal.

Por cada porta fechada
Abriu-me o Anjo uma janela
Para que sereno e contente
Pudesse ver diferente.

Agora, calmamente à janela,
Sensatamente pensando,
Vejo experiências luxuriantes,
Vaidades exaltadas,
Farturas nauseantes,
Como coisas distantes
Que do outro lado das portas
Me tentavam.

Obrigado Anjo
Por me teres iluminado
E guardado das tentações
Que tentam e pulsam nos corações.

Bernardino Côrte

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