J. B. Côrte
À carreira
Data: 30-10-2007, Cartas do Leitor, Diário de Notícias da Madeira
Sábado, 27 de Outubro de 2007, uma agradável e diferente manhã. Via rápida desimpedida na entrada para Funchal. Deslocara-me à cidade para um simples exame médico marcado para as 10 horas na Casa de Saúde da Carreira. Num abrir e fechar de olhos estava já estacionado nas Arcadas de São Francisco. É muito agradável vir ao Funchal no sábado de manhã, faz esquecer a confusão de trânsito dos dias úteis. 9.30h, tempo mais que suficiente para levantar no Multibanco os 50 euros necessários para pagar o exame. E com um pouco de sorte sou atendido antes das 10 h e provavelmente 11 horas já estou em casa. Após a passagem pela primeira caixa de Multibanco a manhã que parecia ser calma e agradável passou a ser agitada. A correria começou. Andei à carreira por 10 caixas Multibanco, todas fora de serviço. Intrigado li num dos meus balões de pensamento: que raio se passa com os Multibancos? -mais tarde, vim a saber que se tratara de uma falha no sistema nacional. Ó raio! E agora? Como vou pagar o exame? Esperei 3 semanas para o fazer e neste preciso momento não tenho dinheiro para o pagar. O pessoal da Casa de Saúde da Carreira compreenderá a situação: faço o exame e pago-o depois afinal sou paciente assíduo da clínica, pensei eu. Exposta a situação à assistente, esta informou-me que era regra pagar antes da realização do exame. Insisti, mas respondeu-me que pouca coisa podia fazer, era o procedimento da casa. Passados alguns segundos pediu-me para esperar, iria tentar falar com o responsável do exame. A resposta chegou. Nada a fazer, é melhor marcar o exame para outra altura. Comecei a perceber que afinal não seria uma manhã de sábado tão agradável como pensara. Como não conseguia aceitar a ideia de voltar para a Ribeira Brava com o exame por fazer, insisti mas em vão: só pagando antecipadamente. O ar da sala começou a ficar quente e solicitei o livro de reclamações não para reclamar o atendimento (afinal a Srª assistente está a cumprir ordens) mas para reclamar o procedimento por achar uma deselegância exigir antecipadamente um pagamento e por achar que a situação poderia ser resolvida de outra maneira. O livro amarelo não estava disponível. Estava fechado num gabinete algures. Pois, era sábado e a clínica estava a funcionar a décimo gás. Passe aqui na segunda-feira para fazer a reclamação, disse-me. O quê?! Pensei eu em mais um balão de pensamento agora ofuscado e embaciado pelo calor: marquei um exame para um sábado de manhã de maneira a não faltar ao trabalho durante a semana, e agora sugerem-me faltar ao trabalho para fazer a reclamação. O ar da sala aqueceu ainda mais, o corpo começou a suar e as pernas a tremelicar. O ar condicionado não estava a funcionar, talvez por ser sábado e a casa estar a funcionar a décimo gás. Para evitar mais confusões saí da Casa de Saúde da Carreira inconformado, com calor, de mãos a abanar, teso e sem o exame. De volta para o estacionamento e de mãos a abanar comecei a ganhar consciência de que talvez não tivesse dinheiro também para pagar o estacionamento. Vasculhei no porta-moedas, nos bolsos e até nos boxers, tanta era a minha aflição: encontrei apenas 1.20 euros. Matutei, em mais um balão de pensamento a se diluir no ar quente da Rua da Carreira: o que me faltava para acabar "bem" esta manhã de sábado era o valor do estacionamento ser de 1.30 euros. E não é que foi mesmo, 1.30 euros de estacionamento! Senti-me perdido num deserto sem ninguém para me ajudar. Expliquei a situação ao Sr. da Tabacaria Arcadas São Francisco. Felizmente foi simpático e compreensível. Tirou 10 cêntimos do seu bolso e emprestou-mos. Passei a conhecê-lo e fiquei a dever-lhe mais do que 10 cêntimos. Paguei o estacionamento e fugi do Funchal à procura de ar fresco que já sentia ao ver as nuvens cinzentas no cume do Areeiro. E ainda bem que era sábado de manhã, sem trânsito cheguei rapidamente ao ar fresco. Contei-vos esta insignificante história para ilustrar como o dinheiro virtual por vezes é mesmo virtual e para nada nos serve. Serviu também para ilustrar a doentia mania de alguns profissionais em girar cegamente à volta dos cifrões não conseguindo libertar-se das doentias amarras do dinheiro que corrompem, por vezes, o saudável relacionamento entre as pessoas...
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