Passagem estreita
(publicada nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 17-10-2007)
Existe uma passagem muita estreita nos acessos ao ensino superior pela qual todos os candidatos querem passar. Uns passam, outros ficam para atrás. É legítimo aspirar essa passagem e um direito por ela passar. Já não é legítimo e justo engendrar estratégias de variadíssimos gostos e feitios para passar à frente dos outros e posicionar-se em lugares privilegiados de forma a tornar essa passagem mais fácil. Todos os candidatos estão em pé de igualdade nas regras de acesso aos cursos superiores. As regras baseiam-se em quantificações, em números, que resultam de um longo, variado e complexo processo de avaliação ao longo dos três anos do ensino secundário (e não só). Até aqui tudo bem. Mas, como se chega à quantificação do mérito de um ser humano? Como se chega a esses números que servirão para deixar passar ou não os candidatos pela porta estreita do acesso ao ensino superior? Essa quantificação do mérito está a ser coerente e justa de forma a que todos os candidatos estejam numa mesma situação de qualidade? Essa quantificação é coerente com o perfil que se espera de um aluno no final do ensino secundário? Essa quantificação é justa tendo em conta a diversidade de disciplinas, de corpo docente, de processos avaliativos, de projectos educativos, etc? A avaliação não é fácil e quem anda nestes terrenos da educação sabe-o muito bem. Na avaliação a isenção absoluta é uma utopia mas na medida do possível a avaliação deverá ser consciente, justa, imparcial. Aspirar e conquistar números altos é legítimo. Consegui-los por uma necessidade obsessiva compulsiva, sem olhar a meios, turva a visão da consciência de quem é avaliado e consequentemente de quem avalia. Surgem já focos deste fenómeno que considero serem sintomas de uma doença humana e socialmente degradante: a obsessão compulsiva por médias altas. Essa obsessão pelos números altos que paira no ar nas secundárias, como um vírus a procura de um corpo para se instalar, é contagiante e poderá ser (ou já o é) um novo problema a resolver por todos os intervenientes no processo educativo. Ouve-se da boca do povo maldizente e inconsciente que a obsessão compulsiva por notas altas infesta já escolas conceituadas. Ouve-se da boca do povo maldizente e inconsciente que, pontualmente já se encomenda, compra ou plagia um bom projecto para se obter uma boa classificação em determinadas áreas curriculares. Os entendidos no assunto dizem que não são encomendas, compras, nem plágios mas sim parcerias que beneficiam alunos, privados e instituições envolvidas. O povo maldizente e inconsciente diz que não é uma generalização mas insiste que existem casos pontuais, insiste que a luta no campo de batalha do acesso às notas altas é desleal e insiste que alcançar uma boa classificação é bem mais fácil para uns do que para outros. Tendo o povo maldizente e inconsciente razão estamos perante sinais de decadência moral. Outrora dizia o povo maldizente e inconsciente que existia por aí certificados falsos.. Outrora o tempo foi passando até que alguém se lembrou de bater na mesa e dizer basta! O tempo deu razão ao povo maldizente e inconsciente: o caso dos certificados falsos, de uma maneira certa ou errada, acabou em tribunal. Espero que o povo maldizente e inconsciente desta vez não tenha razão quanto ao facilitismo às notas altas. Se o povo maldizente e inconsciente tiver razão, essa razão é um alerta sério aos intervenientes nesta matéria, e é razão suficiente para pôr em causa a credibilidade do sistema educativo e a credibilidade do acesso ao ensino superior.
J. B. Côrte
Sem comentários:
Enviar um comentário