sexta-feira, 3 de abril de 2009

J. B. Côrte

O apagar da chama
Publicado nasCartas doLeitor do Diário de Notícias da Maderias em 22-03-2009

O que te angustia assim tanto e te deixa assim numa passividade que te acanha? Algum medo que te intimida e te contrai? Memórias de humilhações no passado que te atormentam, te petrificam e não as consegues apagar? Algum ódio que te turva a alma? Algum ressentimento que te rói a paz de espírito? Já experimentaste perdoá-los? Será uma perda que não consegues superar e esperas que o tempo retroceda para te dar mais uma oportunidade? Não esperes, o tempo está sempre a passar. São obsessões presentes que te encarceram e fecham os teus olhos às coisas belas que te rodeiam? São receios do futuro que te inquietam e que te levam a fazer tudo para os evitar? Com quem tens falado? Com as mudas e surdas paredes do teu quarto? Com o ninguém que está ao abrir a porta ou a janela? Com o teu eu autista que não te consegue ouvir? Tens tentado o outro lado e falar com Ele? Em que estado está a tua fé? Quando tudo parece não ter solução, quando se bate no fundo, o único caminho é subir novamente. Nos momentos de turbulência a sensação de não existir um porto seguro perturba-nos a alma. Mas a tempestade não é permanente acabando por abrandar porque o tempo passa. As nuvens cinzentas do céu acabam por desaparecer, porque existe um vento que sopra. O sol é para todos e volta a nascer e a brilhar porque existe movimento no universo. Porque as marés e as ondas empurram para a costa, o porto seguro reaparece aconchegando-nos em terra firme. Todo o ser tem um potencial, basta libertá-lo e deixá-lo fluir como as plantas e as flores fluem com água na raiz e ar puro para respirar. Cabe-te a ti arejar as raízes e aos outros purificar o ar. Felizmente o dinheiro não é tudo. Há sempre uma alternativa ao apagar da chama, por mais fraca que esteja. Por mais insuportável que seja mantê-la acesa, existe oxigénio mais do que suficiente neste mundo para a incitar. A vida é curta, é um momento fugaz. Nessa fugacidade temos uma missão em função do nosso potencial. Já descobriste qual a tua? Dedicado a um colega de escola (e não só), já lá vão alguns anos.

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