O Brancoso
(Publicada em Espaço OPINIÃO, Plataforma digital, do Diário de Notícias da Madeira, em 12-05-2009)
O Cão Preto com Manchas Brancas (CPMB) levantou a pata traseira direita e mijou na esquina do prédio. Ao mijar fitava uma outra esquina, de um outro prédio, do outro lado da rua. Uma utente que por aí passava tentou enxotá-lo para não sujar de urina fedorenta, que escorria já pela pedra de cantaria até a calçada do passeio, a bela obra arquitectónica. Mas o CPMB, surdo para o enxoto, continuava impávido e sereno a marcar território e a fitar a próxima esquina. Acabada a primeira mijada, ou marcação de território, usem a que lhes der mais jeito para rir ou para levar com seriedade este texto, atravessou a rua até levantar, agora, a pata esquerda traseira, este cão é ambidestro, para fazer a segunda marcação, ou mijada, agora numa esquina de betão projectado e bem alisado pelo mestre de primeira que o trabalhou, e trinchada com tinta de boa marca para maquilhar o acinzentado betão. Para alguns, este prédio não passa de mais um mamarracho inspirado por uma mente brilhante duvidosa, para outros simplesmente uma bela obra arquitectónica. Avançou CPMB para a terceira esquina além da ribeira, agora num percurso mais longo e difícil de fazer porque tinha à sua frente uma ponte e duas zebras deitadas para atravessar, uma anterior e outra posterior à ponte. Sem respeitar semáforos, limites de velocidade, as paralelas limites das referidas zebras e os muitos peões que por aí passavam, o CPMB roçou o seu pelo sujo de cão vadio nas pernas de algumas senhoras, umas depiladas outras não, rasgando também, com o seu pêlo áspero tipo escova de aço, algumas meias. Roçou também, como não podia deixar de ser porque muita gente por ele passava, em calças femininas e masculinas, algumas de marca e acabadas de engomar. Alguns carros perderam tempo a travar e a buzinar para o bicho se afastar. Utentes da via pública praguejaram o bicho por não respeitar algumas elementares regras de trânsito e de boa educação, em especial as respeitantes aos peões, por sujá-los e por lhes rasgar algumas meias de licra como se o bicho percebesse as praguentas palavras e entendesse a stressante vida dos homens. Ao passar na segunda passadeira levou um pontapé de um homem com cara de poucos amigos, que de certeza não gostava de cães, por ter-lhe cheirado a caçarola do almoço com massa cozida há horas e banhada com molho de carne, porque carne não era, da mais barata que se compra em promoção por aí nos supermercados, e por ter-lhe sujado as calças acabadinhas de engomar para uma entrevista de emprego num posto de amarração de ferro numa empresa de construção civil. CPMB resistiu ao pontapé e desistiu da massa com carne, mal sabia o bicho que se tratava de simples molho porque o cheiro também engana, e não se deixou intimidar pelas vicissitudes impingidas pelos homens e mulheres que por ele passaram e pelas coisas da urbe às quais já está habituado, e continuou a sua tarefa marcadora. Finalmente marcou a terceira esquina agora no prédio correspondente ao mercado, esta suja e ensebada por servir de encosto e de almofada pouco cómoda aos sem-abrigo da cidade que encontram aí a abastança dos cheiros dos bens do mercado, em especial o cheiro de carne de vinha-d'alhos avinagrado, já que saboreá-los está fora de questão. Com as esmolas de utentes compadecidos, que por aí passam, vão matando o bicho de vez em quando. Descarregada a bexiga, missão cumprida, o território está marcado. A zona triangulada, que nada tem a ver com tácticas de futebol porque isto do CPMB é uma questão de sobrevivência, está agora controlada e os cães que pela triangulação passarem terão de pedir as devidas autorizações caninas ou então fazer o trajecto em marcha acelerada porque o CPMB não costuma tratar os forasteiros da sua raça com paninhos quentes, excepção feita às cadelas, estas têm livre transito, comprometidas ou não, porque aos cães tanto se lhes faz. Aos cães em passagem não lhes será permitido estacionar a não ser a troco de algum osso saboroso e gorduroso, ou, em último recurso, porque os tempos não são de vacas gordas, um osso seco porque carne é só para alguns. Satisfeito, o CPMB, no seu triângulo, espera não ser incomodado nos próximos tempos por nenhum outro cão e não pretende ceder território a nenhum outro descarregamento de bexiga. CPMB dorme agora uma sesta merecida após roer um osso seco. Eis um episódio normal de domínio territorial, de sobrevivência de espécie e de soberba canina que alguns homens imitam muito bem, uns por necessidade, outros por simples capricho.
Num bar VIP, em zona privilegiada da cidade, na hora de ponta laboral matutina, mais precisamente minutos antes da entrada para o trabalho, o Empregado de Laço Preto (ELP) exausto pelo ritmo acelerado da última meia hora antes das nove, e após ter servido umas 60 bicas e 60 pasteis de nata, e outros tantos bolos e sumos, recebe uma nota de 50 euros de um Cliente de Fato Preto e Gravata às Riscas (CFPGR) para pagar apenas 1,50 Euros correspondente a uma bica e um pastel de nata. CFPGR fez questão de elevar a voz e mostrar a nota, como se de uma bandeira de orgulho nacional se tratasse, antes de cair na mão do ELP. Para não ser antipático na solicitação de outra nota de inferior valor, de modo a facilitar o troco, e para cumprir com as boas regras de educação que um empregado de bar deve cumprir, regras essas permanentemente injectadas na miolada pelo patrão todos os dias antes de entrar ao serviço, ELP aceitou a nota. CFPGR foi o último dos clientes presentes a puxar da nota, querendo desta forma mostrar a simpatia de quem queria pagar a rodada, sabendo de antemão que já estava tudo pago. Passavam poucos minutos das nove e os subalternos ainda aqui presentes deveriam ter aquecido já os seus assentos nos seus locais de trabalho. O bar requintado e frequentado por gente chique, como já referido, estava ainda meio cheio não só de clientes habituais como de conversas frescas postas em dia após folhear diários e jornais. ELP focando pelo canto do olho, como quem não quer ser visto a mirar, apercebe-se que a carteira do CFPGR está cheias de notas de 20 e 50 euros, talvez num total de 600 a 800 euros, muito dinheiro numa carteira em tempo de crise. As notas o tentaram a fazer a sua jogada do dia, fazer troco de 20 com a nota de 50 que acabara de receber. A eventualidade de ser apanhado no golpe, por momentos fê-lo hesitar. Rapidamente varreu visualmente toda a zona do estabelecimento e arriscou. Se fosse apanhado sempre podia dar a desculpa de se ter enganado no valor da nota de pagamento recebida das mãos do CFPGR. E assim fez, entregue o troco, o homem de CFPGR não se apercebeu da aldrabice e ainda agradeceu com um sorriso amarelo de orelha a orelha, Obrigado, e como se ainda não bastasse o saque, deu-lhe uma gorjeta de 1 Euro fazendo questão de este gesto ser visto pela plateia observante com um alto e a bom som, Pode ficar com o Euro. Assim, ELP ganhou com a sua jogada 30 Euros, mais o euro de gorjeta, correspondente a quase um dia de remuneração do trabalho, pago pelo forreta do seu patrão. O CFPGR pouco perdeu comparado com os 600 a 800 euros que levava na carteira. Um ganhou o dia o outro pouco perdeu. Eis um episódio de tentadora malícia do ser humano à custa da distracção de outro. Algumas necessidades a isto obrigam. Quem está livre duma tentação destas, perguntam-se alguns.
Na sonolenta e quente tarde de domingo de eleições, no interior, faziam-se os preparativos para a contagem dos votos. A mesa fechara há cinco minutos e o presidente da mesa, aberta a urna, retirou os boletins para a monótona contagem de votos que os iria ocupar nos momentos seguintes, para no final fazer a contabilização dos abstencionistas. Por mais esforço que fizessem para se manterem em alerta, não conseguiam evitar de vez em quando a pesca de um bodião. O dia fora muito cansativo, muito agitado e o mais quente do ano. As pálpebras pesadas só fazia lembrar uma boa sesta pós-lanche. A um dado momento chega às mãos do Escrutinador Dois (E.D) um boletim em branco, após o Escrutinador Um (E.U) ter dito, Branco. Este, em ilícito, segundo o Número x do Artigo xyzº, da Lei Orgânica nºx/2001, de xx de Agosto, com a esferográfica na mão, olha para os seus companheiros de secção de voto e apercebendo-se de uma sonolência efémera e geral, sente-se tentado a transformar o voto em branco que acabou de lhe chegar às mãos num voto efectivo. Em milésimos de segundos toma a decisão de avançar com a intenção, e em milésimos de segundos também, o E.D marca subtilmente uma cruz no quadrado correspondente ao seu partido, Desculpe, disse ao E.D, o boletim que me acabou de dar não é um voto branco, é um voto no partido X, É, pergunta o E.U surpreendido mas não desconfiado, É um voto no partido X, pode confirmar, Desculpem o lapso, esta semana foi muito cansativa e este calor não está a ajudar em nada, tomarei mais atenção nas próximas confirmações, disse o E.U atrapalhado. De forma a vincar a sua seriedade e idoneidade o E.D lembrou ao E.U, Aconselho a ter mais atenção à contagem, um morto já votou e um voto em x quase passava como branco. Alguns elementos também sonolentos, não se aperceberam da aldrabice do E.D, mas o mandatário do partido y, pelo sim pelo não e por ter achado estranho aquele lapso passou a ter os olhos mais arregalados e passou a estar mais atento à contagem. Os mandatários do partido z e w seguiram-lhe o exemplo. Com esta "brincadeira" o partido x ganhou mais um insignificante voto que não determinará, porque é apenas um voto, nenhum mandato. Mas, Um voto é sempre um voto, pensou E.D. Quanto ao morto que votou e para evitar os confusos procedimentos legais e burocráticos exigidos por lei para repor a legalidade de um voto ilegal, por engano mas ilegal, e de forma também a não ficar registado em acta o comprometedor acto que poderia por em causa a competência da mesa e dar sérias dores de cabeças aos responsáveis por aquela secção, acordaram todos em fazer vista grossa ao voto do morto. Subitamente o pessoal da mesa, olhando para o relógio, quebrou o monótono ritmo da contagem porque a acta ainda está por lavrar e o jantar à espera de ser ingerido antes do anúncio, na televisão, das previsões das sondagens e dos resultados finais oficiais. Eis mais um episódio do oportunismo do ser humano. Algumas necessidades a isto obrigam. Quem está livre de uma tentação destas, perguntam-se alguns.
O até aqui descrito resulta da pura imaginação do Brancoso, indivíduo invisível a olho nu, que ninguém conhece mas sabe-se que existe, e segundo dizem, é cego apenas dos olhos. Alguma semelhança do descrito com a realidade é pura coincidência. Serve apenas para ilustrar situações comportamentais que levam ao mais optimista dos humanos a desconfiar do seu semelhante e, nos casos de cepticismo mais grave, a desconfiar da sua própria sombra. O Brancoso desconfia de tudo e de todos. É um indivíduo que desconfia das pessoas e das propostas que lhes são apresentadas. Como eleitor que é, é já adulto há um bom par de anos, exige, consciente dos seus deveres cívicos, que lhe seja dada a possibilidade de manifestar no boletim de voto, e com segurança, a sua descrença pelo sistema em que é co-participante como eleitor. O seu voto é o voto em branco. Propõe assim o Brancoso que se mantenha o Número x do Artigo xyzº, da Lei Orgânica nºx/2001, de xx de Agosto e que se acrescente em todos os boletins de voto um quadradinho "voto em branco" destinado aos que descrêem como ele.
Dirão alguns que a proposta do Brancoso nada vai alterar e que do ponto de vista técnico e pragmático o voto em branco é inútil e em pouco difere de uma abstenção. Talvez. Mas também há quem afirme, como o Brancoso, que do ponto de vista moral o voto em branco tem valor, uns não vêem ou teimam em não querer ver. O voto em branco tem uma força que debilita quem defende as maiorias absolutas. Se todos os brancosos como o Brancoso materializassem o seu sentido de voto, os defensores de maiorias absolutas não utilizariam a legitimação dada pela maioria dos votos obtidos como pretexto para as suas tomadas de decisões em nome do povo, povo como um todo. Conscientes dessa força brancosa, mediriam as palavras, propostas e promessas antes de as proferir e aprovar de boca e barriga cheias. Depois da noite vem o dia. Depois da uma lua nova vem sempre um quarto crescente e consequente lua cheia. Depois do negrume de uma cegueira é normal que se manifeste a brancura da lucidez.
Bernardino Côrte