terça-feira, 23 de junho de 2009

De que é feita a tua identidade?

Vozes emudecidas, apinhadas em prateleiras, que clamam pela atenção, algumas por justiça, dos indiferentes que por cá andam distraídos e obcecados pelo olhar em frente, porque o olhar à retaguarda parece ser perda de tempo. Nomes de comuns mortais, amontoados em listas e índices infindáveis, que outrora riram, choraram, amaram, sofreram, enfim, viveram e deixaram a marca da sua curta passagem num suporte qualquer. Suporte esse que pode comprovar a passagem curta por esta vida, mas que não prova o real filme das suas vidas bobinadas, sim, na intemporalidade do tempo, algures num lugar a que todos parecem querer aceder mas que nem todos conseguem alcançar. Nados-mortos e nados-vivos, falecidos, que não chegaram a viver a sua primeira Primavera de vida, que tinham por direito divino usufruir, porque alguns mortais acharam poder impor e escrever a história ao compasso e ao gosto das suas convicções, que julgavam ser verdadeiras mas que a sensibilidade humana, no bom sentido da palavra, veio a provar que não. Infinidade de vozes sussurram assim ao meu ouvido, enquanto comodamente sentado olho por uma grande janela e sinto a chuva a cair e a lavar as poeiras do Verão. Respiro dúvidas que pairam no ar da minha imaginação. Inspiro incertezas emanadas pelos vestígios moribundos a quererem erguer-se, clamando pela reposição da verdade, amordaçada, sabe-se lá porquê, por adulterações e premeditações daqueles mortais, que todos conhecemos, pelo menos um, e já mencionados, que se julgavam iluminados. Tento, com a força do expirar, remover camuflagens bem floreadas e apelativas à vista e ao entendimento sem esforço, bem ao gosto dos gostos temporais e contextualizadas num determinado período de tempo, numa época, para, deslumbrado, tentar encontrar daquelas surpresas que nos aguçam a curiosidade e deliciam o pensamento. Lá fora a chuva continua a cair, a poeira do último verão já está lavada, a chuva não deixou vestígios do pó que daqui a nada perder-se-á no fundo do mar. Não posso ficar aqui nesta "secção" por mais tempo sem nada poder fazer, porque o tempo não me dá tempo, porque o tempo passa, aliás, já passou e eu pouco ou nada posso aqui fazer. Uma lágrima corre, o coração amolece e o punho fecha-se. Assim, tristemente entusiasmado mudo para outra "secção".
Após umas inspirações abdominais fundas continuo melancólico, mas entusiasticamente curioso, para agora direccionar a minha atenção para outros assuntos mais objectivos, intelectualmente mais frios e mais claros de calcular e demonstrar, enfim, menos apelativos à emoção. Entretanto, teimosamente me desvio para uma terceira secção onde os dados corroboram as histórias contadas pelos contadores de histórias, pais e avós, nos serões após o jantar, no aconchegar quente da lareira. Mas, responsabilidades, que todos conhecemos do nosso dia-a-dia, levam-me novamente para a segunda “secção”. Aqui, nesta “secção”, de facto, respira-se mais certezas. As informações cruzam-se mais facilmente e compõem, de uma forma mais sustentável, o puzzle do trabalho científico, ou rigoroso, como lhe queiram chamar. Mas não encontro aqui, nesta segunda “secção” o calor da lareira e o calor das palavras dos contadores de histórias. A frieza e objectividade desta “secção” arrefece-me o pensamento e apresentam-se deslavadas de interesse e de conteúdo anémico sem apelo à emoção, como uma arroz branco cozido e sem sal, tempero da existência. Olho novamente pela janela, já não chove, o céu está mais limpo, as nuvens mais esbranquiçadas e a sala mais clara, mas continuo inquieto e propenso para um outro lado com a mira para outra direcção.
Volto novamente para a “secção” anterior, a primeira, à procura de incertezas sedutoras e de emoções fortes, daquelas que dão pica. Volto para desbravar, vasculhar, “cavar” os documentos que julgamos não existir mas que estão lá ansiosas por acordar, e que nos dão prova de qualquer coisa por redimir de forma a libertar alguma alma que ainda esteja presa. Volto para “Cavar” e bater os testemunhos, como torrões ressequidos pelo tempo, que por razões diversas, já referidas, fazem-me crer obstruírem a verdade, a minha verdade, aquela que quero descobrir. Nesta “secção” onde a arena parece ser mais movediça quero “cruzar” entre si séries, fundos, dossiers, processos e procurar encontrar um fio condutor entre uma eventual causa e algum efeito qualquer, disto ou daquilo. Quero encontrar conclusões mesmo que inconclusivas.
Olho novamente para a grande janela: chove outra vez. A sala escureceu mas a minha alma reacendeu. Estou no arquivo deste nosso mundo. Afinal alguma coisa posso ainda fazer.
Bernardino Côrte, Novembro de 2008