O Manhoso Peludo chegou a casa embriagado tal como em todos os fins de tardes de Domingo. A tarde, passou-a na tasca do Bezugo a jogar a bisca e a beber um copo de cada vez que ganhava ou perdia uma partida. O relato da jornada era o som ambiente, propagado por um transístor sobre o balcão mal cheiroso, da secção de jogos da tasca, despertando a atenção dos bisqueiros de cada vez que se ouvia golo da boca do locutor. Dos dois parceiros de Manhoso Peludo, um, o Bigodes Fu Manchu, não lhe perdoava os erros. A cada erro cometido, como se no jogo também não fizesse parte a sorte, desferia-lhe insultos amassando a sua dignidade já enfraquecida pela sua cangueira profissão na construção civil e pelas vicissitudes da vida. Bigodes Fu Manchu insultava o Manhoso Peludo sempre que podia e apetecia porque Manhoso Peludo trazia já carimbado na testa o "rótulo" de desgraçado como muitos outros que por aí andam. Na sua equipa, o único a jogar mal parecia ser ele, na perspectiva do seu autoritário e convencido parceiro. O outro, parceiro, porque de bisca de seis se tratava o jogo, não abria a boca, não jogava, era uma porção, já considerável, de carne viva e passiva que aí estava sentado a respirar oxigénio e a ocupar um lugar de jogador. Por apenas limitar-se a pousar as cartas sobre a mesa, sem dar muito nas vistas, pouco errava. A sua estratégica descrição, herança dos seus antepassados ao aconselharem-no que boca fechada não entra moscas, canalizava a atenção de Bigodes Fu Manchu para o desgraçado, bombo da festa, Manhoso Peludo. O matreiro parceiro não era alvo de vexame porque o "rótulo" de desgraçado ainda não o trazia estampado na testa, mas pouco lhe faltava para o ter, porque esse "rótulo" depressa chega aos vazios de carácter, aos entranhados de individualidade que pensam que as desgraças são apenas para os outros, aos que por egoísmo e ignorância só dizem besteiras, aos que se escudam no nada dizer por conveniência, aos que se deixam agrilhoar pela dependência dos vícios e de outras coisas da vida, aliás, a qualquer um de nós também, pois ninguém está livre de o ver cunhado, a quente ou a frio, na testa.
De volta a casa ao fim da tarde, a vereda de acesso é agora aos ziguezagues e a ladeira logo a seguir ao largo da tasca do Bezugo mais inclinada do que era há umas horas, não por razões físicas mas por motivos de percepção visual e motora, pois nas veias do Manhoso Peludo corria-lhe agora mais vinho do que sangue. Aos ziguezagues ajudava também o matraquear, na memória, dos insultos do Bigodes Fu Manchu que estonteava, talvez, ainda mais que o vinho, a sua pobre lucidez e equilíbrio.
Não surpreendida, porque é já hábito, a mulher do Manhoso Peludo ao vê-lo entrar em casa naquele estado, as estrelas apontavam já no limite crepuscular do lado de lá, oriente, pensou que o marido desta vez iria direito ao quarto curar a bebedeira. Mas não, como de costume procurou o quarto ao lado e chamou pela filha. Como filha bem educada e obediente, como mandam os bons costumes de determinados lugares e de determinados tempos, assim fez, deixou-se levar, porque hábito já era, pela ordem. O Manhoso Peludo fechou a porta e a sua mulher dominada novamente pela vergonha, pela revolta resfriada já pelo tempo, e amedrontada pela incapacidade, na sua condição de mulher de nada poder fazer, entrou no seu quarto, ao lado, ajoelhou-se à beira da cama e com o terço entre os dedos, começou a rezar, de mãos e olhos para o céu, suplicando por ajuda divina. As suas súplicas compassivas misturavam-se com os gemidos do quarto ao lado. Os gemidos mudos de dor, e já sem pudor, renderam-se à macabra sonoridade dos gemidos de prazer de Esta Besta, o Manhoso Peludo. Para os mais atentos e experientes na vida, esses gemidos, aparentemente de prazer, não são mais do que o deslocamento de frustrações, porque Bigodes Fu Manchu não lhe sai da cabeça, para uma inocente que tem estado nestes últimos anos, nesta vida que talvez não escolheu, no lugar errado no tempo errado. O indício deste deslocamento de frustrações está no olhar fosco e frio como Manhoso Peludo fixa o infinito, algures num ponto da parede a um metro de distância do seu nariz. Apesar de uns grilos a cantar no início desta noite amena, tudo se passou no silêncio da infinita noite que se prolonga até à abóbada infinita do céu. Os vizinhos mais próximos estão longe, muito longe, para além dos poios que nunca mais acabam, e o ribeiro bem fundo, a norte, era uma barreira natural para determinadas coisas que se passam no Sítio das Bêberas Pretas. Este sítio, longe, muito longe também, do mais próximo centro urbano mais próximo, onde vive Esta Besta não existe prostituta. O alívio das pulsões, incontroláveis para Esta Besta, é feito a custa do carrasco destino de uma inocente. Aliviado, Esta Besta, caiu e adormeceu aí mesmo na frieza dos azulejos variegados do chão, nem se deu ao trabalho de se deitar na cama e se agasalhar. A filha também não se deu à maçada de o agasalhar, Para quê, perguntou para si mesmo resignada, Não merece, respondeu novamente numa revolta contida e petrificada no seu íntimo há muito tempo.
O Cambado acordou sobressaltado com o atrás descrito. Ao tomar consciência do tempo real, aquele do relógio e não o do sonho, ficou aliviado por saber que tinha acabado de acordar de um pesadelo. Em interiorização acabou por ceder à evidência de que o pesadelo fora um sinal. Mas um sinal para quê, questionou. Perguntou-se onde foi buscar o seu subconsciente essa cena bizarra. Os vizinhos diriam, Está possesso. Alguns entendidos no assunto diriam, São fenómenos paranormais difíceis de explicar. Mas o Cambado sabe que ultimamente tem acedido ao espaço intemporal, Como, não sabe responder, como não sabe responder a muitas outras perguntas que se lhe colocam com o avançar da idade. Ajoelhou-se, à beira da cama, com o crucifixo entre os dedos e de mãos e olhos para o céu, orou, pedindo ao Divino protecção para todas as eventuais vítimas inocentes como a do seu fresco pesadelo. Esta Besta, a do pesadelo, é uma besta diferente da Outra Besta, concluiu o Cambado. Outra Besta, que o tem apoquentado ultimamente, é intemporal, do início dos tempos, superior hierárquico dos anjos caídos, Caídos de e para onde, perguntarão os agnósticos. Para responder a essas perguntas é necessário ler alguns textos, alguns deles considerados sagrados. Nas reflexões e respectivas conclusões resignadas do Cambado, Esta Besta é amassada e cozida pelas coisas más dos homens e da vida, uma humilhação em público, uma exclusão de alguma coisa, privações de categorias diversas, enfim mazelas na psique que normalmente acontecem, com mais frequência e intensidade, na infância e na adolescência. Esta Besta, continuou a concluir o Cambado, é amassada e cozida pelo destino cangueiro que a alguns calha pela coincidência de estarem no lugar errado no tempo errado. A outros calha este destino por apenas assim o quererem. Quer num caso quer noutro, esse destino cangueiro muda irreversivelmente a rota na vida, fazendo da existência um teste muito penoso para o resgate. Assim quis o destino, as escolhas do livre-arbítrio, as coincidências da vida, criar uma Esta Besta, pergunta que todo ser humano, despido de individualismo, deveria fazer. Os mais sensatos responderiam que o destino, as escolhas e as coincidências não podem ser uma expiação para a irresponsabilidade de cada um, perante o seu semelhante, na criação de uma Esta Besta. O Cambado continua no mesmo dilema, procurar respostas do lado de lá e do lado de cá.A terra seca clama por água, como a boca faminta suplica comida. Sem água e sem alimento a terra seca e o corpo morre. Sem a prostituta, Esta Besta e Outra Besta, diferentes ou não, por não morrerem comem inocentes antes de devorarem seus pais, esta expressão não é minha. A prostituta é, assim, a heroína dos inocentes que se entrega, como carne para canhão, às bestas para que se aliviem e se saciem da sua sede de submeter ao seu jugo tudo o que humanamente flui, poupando assim inocentes e desprevenidos. Esta Besta sabemos já como é gerada. A Outra Besta, continuando a insistir, é diferente da outra, vai armandilhando os caminhos, nas almas vai tecendo as suas teias, vai entrando sorrateiramente ao longo da vida até gerar desgraçados como o Manhoso Peludo, do pesadelo do Cambado. São diferentes, mas andam de mãos dadas e uma delas depende, em parte, da outra, ao contrário de umas das conclusões resignadas do Cambado. Mudando de espaço e de tempo, o Mestre ao ajudar à conversão aquela que alguns chamaram, e outros continuam a chamar, de prostituta, porque convém sempre haver uma prostituta para expiar alguns males, não fez mais do que, aos olhos de uns, livrar uma inocente das garras das bestas, aos olhos de outros, perpetuar as suas acções noutro lugar e noutro tempo, porque Outra Besta não morre, muda de tempo e muda de lugar, fica à espreita. Este acto altruísta do Mestre foi uma machadada fatal para Estas Bestas, ferida momentânea nos cornos de Outra Besta repelindo-a apenas para outro lugar e para outro tempo. A disputa pelos espaços do Bem e do mal é permanente, é como a luta do ar quente e do ar frio pelo espaço físico, comparação creio eu aceitável.Na dimensão que cada um quiser considerar, Outra Besta espreita querendo se aninhar. Encontramo-la ao virar de algumas esquinas, ao abrir determinadas portas, ao espreitar por determinadas janelas. Encontramo-la também bem dentro de nós, em algumas nas nossas palavras e acções a querer gerar em nós ou nos outros uma Esta Besta. Uns vão resistindo, outros deixam-se aprisionar por inocência, por distracção, por fraqueza, por interesse, ou por outra coisa qualquer. Infelizmente Outra Besta vai prostituindo. E como no pesadelo do Cambado, as bestas de mãos dadas vão estuprando, também, inocentes em pesadelos de alguns Homens. E porque não sabeis nem o dia nem a hora, expressão que também não é minha, estai atentos porque Outra Besta tem nomes e usa máscaras.
De volta a casa ao fim da tarde, a vereda de acesso é agora aos ziguezagues e a ladeira logo a seguir ao largo da tasca do Bezugo mais inclinada do que era há umas horas, não por razões físicas mas por motivos de percepção visual e motora, pois nas veias do Manhoso Peludo corria-lhe agora mais vinho do que sangue. Aos ziguezagues ajudava também o matraquear, na memória, dos insultos do Bigodes Fu Manchu que estonteava, talvez, ainda mais que o vinho, a sua pobre lucidez e equilíbrio.
Não surpreendida, porque é já hábito, a mulher do Manhoso Peludo ao vê-lo entrar em casa naquele estado, as estrelas apontavam já no limite crepuscular do lado de lá, oriente, pensou que o marido desta vez iria direito ao quarto curar a bebedeira. Mas não, como de costume procurou o quarto ao lado e chamou pela filha. Como filha bem educada e obediente, como mandam os bons costumes de determinados lugares e de determinados tempos, assim fez, deixou-se levar, porque hábito já era, pela ordem. O Manhoso Peludo fechou a porta e a sua mulher dominada novamente pela vergonha, pela revolta resfriada já pelo tempo, e amedrontada pela incapacidade, na sua condição de mulher de nada poder fazer, entrou no seu quarto, ao lado, ajoelhou-se à beira da cama e com o terço entre os dedos, começou a rezar, de mãos e olhos para o céu, suplicando por ajuda divina. As suas súplicas compassivas misturavam-se com os gemidos do quarto ao lado. Os gemidos mudos de dor, e já sem pudor, renderam-se à macabra sonoridade dos gemidos de prazer de Esta Besta, o Manhoso Peludo. Para os mais atentos e experientes na vida, esses gemidos, aparentemente de prazer, não são mais do que o deslocamento de frustrações, porque Bigodes Fu Manchu não lhe sai da cabeça, para uma inocente que tem estado nestes últimos anos, nesta vida que talvez não escolheu, no lugar errado no tempo errado. O indício deste deslocamento de frustrações está no olhar fosco e frio como Manhoso Peludo fixa o infinito, algures num ponto da parede a um metro de distância do seu nariz. Apesar de uns grilos a cantar no início desta noite amena, tudo se passou no silêncio da infinita noite que se prolonga até à abóbada infinita do céu. Os vizinhos mais próximos estão longe, muito longe, para além dos poios que nunca mais acabam, e o ribeiro bem fundo, a norte, era uma barreira natural para determinadas coisas que se passam no Sítio das Bêberas Pretas. Este sítio, longe, muito longe também, do mais próximo centro urbano mais próximo, onde vive Esta Besta não existe prostituta. O alívio das pulsões, incontroláveis para Esta Besta, é feito a custa do carrasco destino de uma inocente. Aliviado, Esta Besta, caiu e adormeceu aí mesmo na frieza dos azulejos variegados do chão, nem se deu ao trabalho de se deitar na cama e se agasalhar. A filha também não se deu à maçada de o agasalhar, Para quê, perguntou para si mesmo resignada, Não merece, respondeu novamente numa revolta contida e petrificada no seu íntimo há muito tempo.
O Cambado acordou sobressaltado com o atrás descrito. Ao tomar consciência do tempo real, aquele do relógio e não o do sonho, ficou aliviado por saber que tinha acabado de acordar de um pesadelo. Em interiorização acabou por ceder à evidência de que o pesadelo fora um sinal. Mas um sinal para quê, questionou. Perguntou-se onde foi buscar o seu subconsciente essa cena bizarra. Os vizinhos diriam, Está possesso. Alguns entendidos no assunto diriam, São fenómenos paranormais difíceis de explicar. Mas o Cambado sabe que ultimamente tem acedido ao espaço intemporal, Como, não sabe responder, como não sabe responder a muitas outras perguntas que se lhe colocam com o avançar da idade. Ajoelhou-se, à beira da cama, com o crucifixo entre os dedos e de mãos e olhos para o céu, orou, pedindo ao Divino protecção para todas as eventuais vítimas inocentes como a do seu fresco pesadelo. Esta Besta, a do pesadelo, é uma besta diferente da Outra Besta, concluiu o Cambado. Outra Besta, que o tem apoquentado ultimamente, é intemporal, do início dos tempos, superior hierárquico dos anjos caídos, Caídos de e para onde, perguntarão os agnósticos. Para responder a essas perguntas é necessário ler alguns textos, alguns deles considerados sagrados. Nas reflexões e respectivas conclusões resignadas do Cambado, Esta Besta é amassada e cozida pelas coisas más dos homens e da vida, uma humilhação em público, uma exclusão de alguma coisa, privações de categorias diversas, enfim mazelas na psique que normalmente acontecem, com mais frequência e intensidade, na infância e na adolescência. Esta Besta, continuou a concluir o Cambado, é amassada e cozida pelo destino cangueiro que a alguns calha pela coincidência de estarem no lugar errado no tempo errado. A outros calha este destino por apenas assim o quererem. Quer num caso quer noutro, esse destino cangueiro muda irreversivelmente a rota na vida, fazendo da existência um teste muito penoso para o resgate. Assim quis o destino, as escolhas do livre-arbítrio, as coincidências da vida, criar uma Esta Besta, pergunta que todo ser humano, despido de individualismo, deveria fazer. Os mais sensatos responderiam que o destino, as escolhas e as coincidências não podem ser uma expiação para a irresponsabilidade de cada um, perante o seu semelhante, na criação de uma Esta Besta. O Cambado continua no mesmo dilema, procurar respostas do lado de lá e do lado de cá.A terra seca clama por água, como a boca faminta suplica comida. Sem água e sem alimento a terra seca e o corpo morre. Sem a prostituta, Esta Besta e Outra Besta, diferentes ou não, por não morrerem comem inocentes antes de devorarem seus pais, esta expressão não é minha. A prostituta é, assim, a heroína dos inocentes que se entrega, como carne para canhão, às bestas para que se aliviem e se saciem da sua sede de submeter ao seu jugo tudo o que humanamente flui, poupando assim inocentes e desprevenidos. Esta Besta sabemos já como é gerada. A Outra Besta, continuando a insistir, é diferente da outra, vai armandilhando os caminhos, nas almas vai tecendo as suas teias, vai entrando sorrateiramente ao longo da vida até gerar desgraçados como o Manhoso Peludo, do pesadelo do Cambado. São diferentes, mas andam de mãos dadas e uma delas depende, em parte, da outra, ao contrário de umas das conclusões resignadas do Cambado. Mudando de espaço e de tempo, o Mestre ao ajudar à conversão aquela que alguns chamaram, e outros continuam a chamar, de prostituta, porque convém sempre haver uma prostituta para expiar alguns males, não fez mais do que, aos olhos de uns, livrar uma inocente das garras das bestas, aos olhos de outros, perpetuar as suas acções noutro lugar e noutro tempo, porque Outra Besta não morre, muda de tempo e muda de lugar, fica à espreita. Este acto altruísta do Mestre foi uma machadada fatal para Estas Bestas, ferida momentânea nos cornos de Outra Besta repelindo-a apenas para outro lugar e para outro tempo. A disputa pelos espaços do Bem e do mal é permanente, é como a luta do ar quente e do ar frio pelo espaço físico, comparação creio eu aceitável.Na dimensão que cada um quiser considerar, Outra Besta espreita querendo se aninhar. Encontramo-la ao virar de algumas esquinas, ao abrir determinadas portas, ao espreitar por determinadas janelas. Encontramo-la também bem dentro de nós, em algumas nas nossas palavras e acções a querer gerar em nós ou nos outros uma Esta Besta. Uns vão resistindo, outros deixam-se aprisionar por inocência, por distracção, por fraqueza, por interesse, ou por outra coisa qualquer. Infelizmente Outra Besta vai prostituindo. E como no pesadelo do Cambado, as bestas de mãos dadas vão estuprando, também, inocentes em pesadelos de alguns Homens. E porque não sabeis nem o dia nem a hora, expressão que também não é minha, estai atentos porque Outra Besta tem nomes e usa máscaras.
Bernardino Côrte