sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Vacina a 100% ou a 99,9%
Uma avó paterna faleceu há muitos anos, a segunda guerra mundial estava à porta. Segundo o seu Registo de Óbito, faleceu de gripe. Os tempos eram outros e os meios à disposição da saúde pública também. Tinha um dos seus filhos, na altura, dois anos e meio de idade. Um dos seus netos veio a nascer vinte e nove anos depois. Essa avó com trinta e cinco anos de idade faleceu algures num recôndito sítio perdido entre as montanhas, que por ser muito pequeno não é visível num mapa. Um filho em tenra idade foi privado do convívio, dos afectos com a sua mãe, afectos que todo filho tem direito a ter. Um neto não chegou a conhecer a sua avó, mas isso, comparado com os perdidos laços mãe-filho, é secundário.
Li em notícia publicada no Diário de Notícias, 28 de Agosto de 2009, que a França planeia vacinar toda a sua população, 100% ou 99,9%, como quiserdes. Portugal prevê, segundo a mesma notícia, vacinar um terço da sua população. Grande país esta França! Por fugazes momentos divaguei fantasiosamente por aí algures nos confins do pensamento e desejei estar a viver em França, com toda a minha família. Pouco durou a fantasia. Assentei os pés no chão, afinal, sou lusitano e em terra lusitana trabalho e vivo. Actualmente, num cenário de pandemia, a indústria dos remédios parece não conseguir produzir mais do que 900 milhões de vacinas por ano. A população mundial é de 6,8 mil milhões de habitantes. Quem ficará de fora? Quem serão os excluídos desta vez?...
J.B.Côrte
Publicada nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 05 de Outubro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Pressa, pressa
Para onde vão com tanta pressa? Vamos preparar o futuro para as gerações vindouras. Para os nossos netos? Perguntou. Não, talvez para os nossos bisnetos. Então para quê tanta pressa? Perguntou surpreendido. Não há tempo a perder, minutos perdidos no presente comprometem anos no futuro! Exclamaram com convicção. E que futuro é esse? Perguntou curioso novamente. Bem-estar, riqueza estabilidade, de forma a evoluir ainda mais. Que evolução é essa? Evolução a todos os níveis. Espiritual também? Perguntou. Espiritual não sabemos, não somos religiosos. E porque não evoluir aqui e agora?, pergunta sensata. Evoluir requer tempo, o "aqui e o agora" já é passado e não temos tempo a perder com o passado, a nossa mira está no olhar em frente sem comprometer o futuro, e como conseguem ver tantas benesses nesse futuro? Não as vemos, sentimo-las, desejamo-las, com elas sonhamos. Têm a certeza que é esse o caminho que desejam para o bem-estar dos vossos povos? Temos, responderam mais uma vez com convicção. E os vossos povos também têm essa certeza? Têm todos? Perguntou duvidoso. Todos não, as minorias emperram o trabalhar da afinada máquina dos nossos ideais. Como têm tanta certeza desse risonho futuro? Perguntou com uma pitada de cepticismo. A vontade e a imaginação abrem os caminhos e consolidam os nossos passos no rumo certo, o povo acredita em nós. Não serão esse sonho e vontade niilistas? Não, é um sonho e uma vontade comum. Mas nesse futuro, vós e os vossos povos já não estarão aqui para as benesses que proclamam, alertou. Não compreendes pois não. Compreender o quê? Que os velhos do Restelo entravam o sonho e a vontade de conquista que comandam a vida. E o presente? insistiu. O presente é já um passado que para nada serve. E o agora? inquiriu apontando à volta. O agora é um futuro a curto prazo, logo passado. Não olham para as pessoas à vossa volta? Não temos tempo, o futuro é a nossa rota. E os que agora no presente sentem ódio, medo e têm fome? São as vítimas inevitáveis das grandes conquistas. Por acaso têm vocês acesso à dimensão intemporal? Pergunta que os surpreende. Dimensão intemporal, o que é isso de dimensão intemporal? respondem perguntando confusos. Desculpem, esqueci que não são religiosos, mas peço-vos, matem a fome no aqui e no agora, iluminem quem sente ódio e medo, suplicou, Não podemos, minutos no presente comprometem anos no futuro. Por favor, ajudem os mais desfavorecidos no aqui e no agora. Registamos o teu pedido, mas a nossa rota já está traçada. E porque não mudar de rota e parar um pouco no aqui e no agora? insiste suplicante. A pobreza é a sina dos fracos, a compaixão entrava a vontade e o perdão enfraquece as convicções. Mas Nietzsche já está sepultado. Nietzsche está vivo, responderam. Nietzsche já está sepultado, insistiu, não vêem que o planeta está insustentável, que os grandes impérios estão falidos, que o mundo tem enveredado para o lado errado? perguntou em desespero. E qual é o lado certo? O lado do bom senso e o da razão do coração. Pensas como um velho do Restelo, Nietzsche está sepultado, repetiu, o anticristo do aqui e do agora é outro, ele produz dependências doentias, falsas necessidades e acelera desenfreadamente o tempo. Desculpa meu amigo, não temos é tempo a perder contigo e com as tuas ocas ideias, vemo-nos no futuro, ..., Sim, onde estás? Perguntaram olhando para todas as direcções e surpreendidos por não verem o seu interlocutor. Estranho, estivemos a alucinar? perguntou um. Bem vos disse que precisávamos de umas revigoradas férias para desacelerar, disse um outro. Eu também vos avisei que esta pressa nos iria esgotar, disse um terceiro. Estão a falar com quem? perguntou distraído um quarto.
Publicado nas Cartas do Leitor do Diário deNotícias da Madeira em 11 de Maio de 2009
Publicado nas Cartas do Leitor do Diário deNotícias da Madeira em 11 de Maio de 2009
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