terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pressa, pressa

Para onde vão com tanta pressa? Vamos preparar o futuro para as gerações vindouras. Para os nossos netos? Perguntou. Não, talvez para os nossos bisnetos. Então para quê tanta pressa? Perguntou surpreendido. Não há tempo a perder, minutos perdidos no presente comprometem anos no futuro! Exclamaram com convicção. E que futuro é esse? Perguntou curioso novamente. Bem-estar, riqueza estabilidade, de forma a evoluir ainda mais. Que evolução é essa? Evolução a todos os níveis. Espiritual também? Perguntou. Espiritual não sabemos, não somos religiosos. E porque não evoluir aqui e agora?, pergunta sensata. Evoluir requer tempo, o "aqui e o agora" já é passado e não temos tempo a perder com o passado, a nossa mira está no olhar em frente sem comprometer o futuro, e como conseguem ver tantas benesses nesse futuro? Não as vemos, sentimo-las, desejamo-las, com elas sonhamos. Têm a certeza que é esse o caminho que desejam para o bem-estar dos vossos povos? Temos, responderam mais uma vez com convicção. E os vossos povos também têm essa certeza? Têm todos? Perguntou duvidoso. Todos não, as minorias emperram o trabalhar da afinada máquina dos nossos ideais. Como têm tanta certeza desse risonho futuro? Perguntou com uma pitada de cepticismo. A vontade e a imaginação abrem os caminhos e consolidam os nossos passos no rumo certo, o povo acredita em nós. Não serão esse sonho e vontade niilistas? Não, é um sonho e uma vontade comum. Mas nesse futuro, vós e os vossos povos já não estarão aqui para as benesses que proclamam, alertou. Não compreendes pois não. Compreender o quê? Que os velhos do Restelo entravam o sonho e a vontade de conquista que comandam a vida. E o presente? insistiu. O presente é já um passado que para nada serve. E o agora? inquiriu apontando à volta. O agora é um futuro a curto prazo, logo passado. Não olham para as pessoas à vossa volta? Não temos tempo, o futuro é a nossa rota. E os que agora no presente sentem ódio, medo e têm fome? São as vítimas inevitáveis das grandes conquistas. Por acaso têm vocês acesso à dimensão intemporal? Pergunta que os surpreende. Dimensão intemporal, o que é isso de dimensão intemporal? respondem perguntando confusos. Desculpem, esqueci que não são religiosos, mas peço-vos, matem a fome no aqui e no agora, iluminem quem sente ódio e medo, suplicou, Não podemos, minutos no presente comprometem anos no futuro. Por favor, ajudem os mais desfavorecidos no aqui e no agora. Registamos o teu pedido, mas a nossa rota já está traçada. E porque não mudar de rota e parar um pouco no aqui e no agora? insiste suplicante. A pobreza é a sina dos fracos, a compaixão entrava a vontade e o perdão enfraquece as convicções. Mas Nietzsche já está sepultado. Nietzsche está vivo, responderam. Nietzsche já está sepultado, insistiu, não vêem que o planeta está insustentável, que os grandes impérios estão falidos, que o mundo tem enveredado para o lado errado? perguntou em desespero. E qual é o lado certo? O lado do bom senso e o da razão do coração. Pensas como um velho do Restelo, Nietzsche está sepultado, repetiu, o anticristo do aqui e do agora é outro, ele produz dependências doentias, falsas necessidades e acelera desenfreadamente o tempo. Desculpa meu amigo, não temos é tempo a perder contigo e com as tuas ocas ideias, vemo-nos no futuro, ..., Sim, onde estás? Perguntaram olhando para todas as direcções e surpreendidos por não verem o seu interlocutor. Estranho, estivemos a alucinar? perguntou um. Bem vos disse que precisávamos de umas revigoradas férias para desacelerar, disse um outro. Eu também vos avisei que esta pressa nos iria esgotar, disse um terceiro. Estão a falar com quem? perguntou distraído um quarto.
Publicado nas Cartas do Leitor do Diário deNotícias da Madeira em 11 de Maio de 2009

Sem comentários: