Ao chegar à estrada regional virou à direita, a oeste, como tem sido hábito diário nos últimos anos a volta da sua região, seguindo o sentido dos ponteiros do relógio, na distribuição do produto do seu ramo de actividade. Todos os dias, ao amanhecer, iniciava o seu itinerário profissional. Virava à direita, a oeste, para não ser ofuscado pelos primeiros raios de sol do dia que nascia a este e porque os minúsculos picos de tabaibeira, a oeste, ficam assentes no chão pelo sereno matinal. Esses picos têm encegueirado o pessoal dessas bandas nos dias inflamados pelo calor do sol, associados à ventania de quadrantes vários (a zona oeste é rica em tabaibeiras cultivadas pela natureza em tudo quanto é canto). Num desses itinerários, entre o afastamento considerável de um cliente e outro, olhando para uma outra paisagem livre de tabaibeiras, já passava das onze e quase meia ilha já tinha sido percorrida, a chuva de Setembro que lá fora caia emanou-lhe um estado daqueles difíceis de explicar que colocam o pensamento noutra dimensão. O veículo deixou-se guiar como que por um piloto automático. Enquanto o limpa-parabrisas, em movimento hipnótico, afastava a água do vidro, o leve estado de transe induzido pelas maravilhas da natureza do momento abria-lhe o pensamento para o passado. Nesse retorno fez contas à vida e algumas fizeram-lhe tomar consciência de alguns gastos, insignificantes mas que lhe mordiscaram a carteira nestes últimos anos. Tomou consciência do desgaste dos componentes do lado esquerdo do seu veículo, pneus, pastilhas de travões, juntas, suspensões, eixos, etc, em virtude de virar à direita no seu percurso. Feitas as suas contas de mercearia, e portanto cientificamente pouco rigorosas, o que poupava com os componentes do lado direito não cobria a despesa que tinha com o desgaste dos componentes do lado esquerdo. A partir desse dia, todos os dias de manhã, passou a virar, ao chegar à estrada regional, alternadamente à direita e à esquerda para equilibrar o desgaste dos componentes entre ambos os lados do seu Bedford J1, relíquia que ainda anda, sabendo dos picos de tabaibeiras a flutuar no ar que iria encontrar no lado oeste ao fim do dia quando virasse à esquerda. Quanto à ofuscação dos primeiros raios de sol, quando virasse à esquerda, resolveu-a com uns bons óculos de sol graduados. Graduados porque descobriu, com a ida ao oftalmologista, que começara a ter falta de vista.
Publicado nas Cartas do Leitor, do Diário de Notícias da Madeira, em 28-09-2009