Convidou-o a dar uma volta, a pé. Pararam num café e Cara Quadrada ofereceu-lhe um chocolate. O Puto Solitário não percebeu tanta bondade, desconfiou mas não o suficiente para rejeitar a oferta, um chocolate é sempre bem-vindo. Percorreram ambos uns quarteirões ladeados de edifícios altos e de cores degradadas e chegaram a um jardim público ao fim da rua. Alguns sem-abrigo acabavam de jantar o pouco que puderam encontrar ou o pouco que lhes deram. Outros, sem-abrigos, já dormiam, uns para enganar a falta da comida que não encontraram, outros anestesiados pelo álcool. Um casal de namorados mais ao fundo à esquerda ou à direita, não interessa, conversava entre beijos e carícias. Um outro casal ainda mais ao fundo, entre arbustos, era já quase noite, iam já para além dos preliminares. Risos femininos e risos masculinos de excitação e de embriaguês saiam de um bar próximo ao compasso da música de uma rocola. Num banco não muito longe, semi-escondido por detrás do tronco de uma grande árvore, um velho em vias de se tornar um sem-abrigo, o Velho Solitário, observava-os dando as últimas passas no seu cachimbo antigo e companheiro. Não era a primeira vez que via o Cara Quadrada por estas bandas estranhamente acompanhado por alguém desfazado na idade. Sempre que o via acompanhado desta maneira, fazia uma prece apelando a outras forças o bloqueio das más intenções de Cara Quadrada, a sua longa experiência de vida apurou-lhe a intuição, Porque não me correm as coisas bem, questionava-se frustrado Cara Quadrada, momentos depois de cada prece do Velho Solitário, e este não entendia porque Cara Quadrada insistia em vir para este seu território já marcado há algum tempo. Aqui o Velho Solitário encontra ar puro e a comodidade que não encontra no seu barracão mal cheiroso há poucas centenas de metros deste jardim público, num dos poucos baldios que ainda existem nesta cidade. Numa ocasião, quando uma das suas preces não foi atendida pelas forças do outro lado e vendo Cara Quadrada quase a consumar as suas intenções, o Velho Solitário, arrastando as pernas com esforço, porque as pernas já não eram o que eram, agarrou-o pelo colarinho com a sua grande mão esquerda e aqueceu-lhe as aduelas com a mão direita, também grande, que a natureza lhe deu. Depois dessa coça o desgraçado continua a rondar estas bandas, não aprendeu a lição, a obcessão-compulsão impele a estes comportamentos repetitivos e anormais. Esperemos que nesta noite não seja necessário recorrer à força das fortes mãos do Velho Solitário.
Este cenário era novidade e estranho para o Puto Solitário que começou a ficar perturbado e ameaçado na sua inocência, mas continuava a saborear o resto do chocolate. O silêncio de Cara Quadrada, homem de poucas palavras, começava a perturbá-lo também. Ao redor deste silêncio alguns carros e autocarros queimavam, nas ruas já desafogadas pelo adormecer da cidade, os últimos litros de gasolina. A cidade adormecia acordando para a noite. Embriaguês, prostituição, violência, assaltos à mão armada e desarmada eram presença em esquina sim esquina não nas noites desta cidade, uma das maiores e mais perigosas do mundo. Todos os seres que neste jardim público estavam, sem-abrigos, namorados, Puto Solitário, Cara Quadrada, Velho Solitário e outros poucos transeuntes que se contavam com os dedos das mãos, compunham este cenário desenhado com destinos cruzados, coincidências para uns, mero acaso para outros, pela mão de não se sabe quem e com que intenção, provavelmente para dar uma lição de vida a alguém. Todas as personagens deste quadro sombrio, porque noite já era, matutavam nos seus mundos, muito diferentes uns dos outros. Os seus sonhos individuais, ou ausência deles, as suas necessidades, as suas histórias compunham outros quadros implícitos dentro deste nocturno quadro geral. O cenário agourava alguma coisa de estranha ao Puto Solitário. Estava na idade em que todos são bons ou maus, em que não via diferenças entre as pessoas que considerava boas, estava na idade da inocência. Quando aceitou o chocolate enquadrou Cara Quadrada na lista dos bons, sentiu a oferta como uma manifestação de amizade. Via em Cara Quadrada o pai que oferece doces, a mãe que dá afectos e todos os adultos que aos olhos da sua inocência eram bons e iguais no perfil, psicologicamente falando, Qual é o bom adulto que não oferece um chocolate a uma criança, pensou. O Velho Solitário não pensava assim, a experiência apurou-lhe o dom de ver as coisas boas e más do mundo para além das aparências. Mas perante o cenário em que se encontrava, e pela bondade e pela afectividade excessiva de alguém que não conhecia muito bem, pela aproximação que invadia já a sua distância íntima, o Puto Solitário, como que alertado no seu íntimo por um perigo iminente que não sabia explicar, começou a duvidar das reais intenções de Cara Quadrada. A sua inocência abalara mais uma vez. Atrapalhado, invadiu-lhe o pensamento a dúvida da sua masculinidade, como já lhe acontecera recentemente noutro lugar e noutro tempo, não pela ausência de pelos na cara, no peito, nas pernas, no púbis e em todas aquelas zonas em que os homens têm pelos, pois não tinha idade para isso, mas porque se apercebeu de uma estranha atenção, meiguice e aproximação fora do normal do Cara Quadrada, que era homem. Afinal, os perfis agora não lhe pareciam iguais, mais uma pedra caia do muro da sua inocência, O que verá ele em mim, questionou-se, Velho Solitário sabia a resposta e questionava-se também porque deixam os pais uma criança desta idade entregue a si mesma numa grande cidade doentia e cheia de tubarões como esta. A resposta é simples, o Puto Solitário não se deixa fechar em quatro paredes, foge pela primeira porta ou janela que encontra aberta, o seu lugar é ao ar livre, como um pássaro, a andar nas ruas, a saltar de prédio em prédio, de telhado em telhado como um Spider Man, explorar o desconhecido. Este Puto está talhado para campo aberto, para o espaço livre e sem barreiras, explorar florestas, trilhos e outras coisas normais para esta idade conjugadas ao seu perfil. O Puto Solitário, já angustiado e ansioso, fez um flash back ao seu curto percurso por esta existência, obsevou vários fotogramas da sua vida, do seu dia-a-dia, e via que vestia como rapaz, que brincava como rapaz, seus brinquedos eram de rapaz. Portanto, aos olhos dos especialistas em matéria de comportamentos a conclusão seria não se tratar de síndrome do Rapaz Efeminado, Não sou afeminado, pensou o Puto Solitário, mas duvidou perante a amalgama de sensações do seu sexto sentido, como é normal nesta tenra fase da vida em que as ambiguidades fervilham na incerteza do que se julga certezas.
Discretamente, e sempre com Cara Quadrada no seu encalço, foi arranjando pretextos para sair do jardim público, O velho Solitário mantinha-se discreto e vigilante. Os poucos metros de acesso à rua por onde tinham entrado pareceiam agora kilómetros, levou o seu tempo até sairem dali sem levantar suspeitas que pudessem alterar a calma aparente, até aqui, de Cara Quadrada. Momentos depois, e vendo-os já ao longe sob a ténue iluminação pública da rua sombria e sabendo que as suas pernas não conseguiriam acompanhá-los, tirou mais uma prece da sua bem servida cartola. Minutos depois, a aproximadamente dois quarteirões, perdeu de vista Cara Quadrada que virou à direita, não se sabe para onde, quando se apercebeu de alguém em sentido contrário. O Velho Solitário esforçou a vista e viu um vulto feminino se aproximar do Puto solitário, parecia ser a mãe acompanhada telvez pelo pai que vinha mais atrás como que a fazer a guarda. Pelo raspanete que lhe deu só podia ser a mãe, Agora está seguro, pensou aliviado o Velho. Mais uma vez a sua prece foi atendida e agradeceu aos céus com uma oração que não se ouviu nesta silenciosa rua da cidade.
A dúvida do Puto Solitário quanto à sua masculinidade, essa crise de identidade à medida de puto, remoeu-o, remoeu-o, e levou o seu tempo a se dissipar da sua psique, Durou o que durou, resolveu-se e com ela aprendi, reconheceu o Puto Solitário que já não é puto, Passarão todos, homens e mulheres, por este dilema de identidade, pergunta-se agora olhando para trás, mas não sabe responder. Estes assuntos são normalmente guardados lá no fundo das memórias porque assuntos destes são assuntos de que pouco se falam.
O Seu Anjo Da Guarda e o Velho Solitário obstruiram-lhe naquela altura a porta para uma possível feminilidade da sua personalidade. De vez em quando o puto, que já não é puto, agradece ao seu Anjo da Guarda. Não agradece ao Anjo na terra, o Velho Solitário, porque não o viu.
quarta-feira, 24 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Maltrapilho de Natal
Zulmira e Dona Adelaide, sua mãe, sentaram-se junto à lareira da pequena cozinha adjacente à sua modesta casa. Dona Adelaide colocou mais uma pinha e um graveto para não deixar apagar o lume que a humidade do frio e matreiro nevoeiro deste fim de tarde de Véspera de Natal insistia teimosamente em apagar. Apesar de fechada, a porta deixava passar o frio e a humidade do nevoeiro por alguns buracos que o caruncho desenhou nos últimos anos e que a falta de posses não possibilitou o conserto. Caruncho não falta nesta cozinha de odor fumado enegrecida pela lenha queimada e pelo petróleo queimado também pela lamparina que, apesar de antiga e com o vidro rachado, vai alumiando nos dias e nas noites escuras. A lenha e as pinhas desfalecidas pela humidade para a combustão, são poucas e têm que ser racionadas de forma a abastecer a chama da lareira da pequena cozinha, neste resto de véspera de Natal e nos dias seguintes, Natal e primeiras oitavas. Se o tempo melhorar irão à cata de lenha e de pinhas, se houver, nos pinhais próximos, porque nessa altura toda a lenha, graveto, pinha e musgo eram aproveitados. As vides para arder só estarão disponíveis após a poda, lá para fins de Janeiro, Fevereiro.
Escusado será dizer que ambas, junto ao calor da lareira, aqueciam os pés descalços envoltos em serapilheira. Os corpos, com a pouca roupa que tinham, aqueciam com o sangue tépido que lhes vinha dos pés. Dona Adelaide dava uns pontos no bordado que começara há mais de um mês, não conseguindo acabá-lo, antes da Festa como previsto, a vista já não é o que era, para ajudar a abastecer a mesa antes da Missa do Galo que tem vindo a ser preparada na última semana pelos paroquianos. Zulmira abraçava uma boneca de trapos, oferecida pelo Menino Jesus há anos, aquecendo-a com o pouco calor do corpo que lhe vinha dos pés. Mãe, o que vai ser a nossa Ceia de hoje, perguntou sentindo já a presença da fome, Não te preocupes filha, Nosso Senhor e o Menino Jesus hão-de nos deparar qualquer coisa para a Ceia, respondeu para não a desiludir. Zulmira, com a boneca ao colo e com a fome na barriga, olhou para as chamas e orou em pensamento para o Menino Jesus lhes deparar coisas boas. No recanto da lareira, um tacho com alguma água ainda fria, colhida na fonte mais próxima já que rede pública de água potável ainda não existia, esperava ser colocada sobre o lume com umas folhas de coives, já prontas num pequeno alguidar de porcelana barata sobre a mesa enegrecida pelo fumo e pelo tempo, que depois de cozidas serão servidas como a ceia desta véspera de Natal.
Estavam sozinhas em casa por razões familiares que não interessam aqui mencionar, porque é véspera de Natal e não vale a pena aqui esmiuçar desentendimentos que fazem da vida uma cruz difícil de carregar. O marido não está, emigrou à procura de melhor sorte. O outro filho também não, vive temporariamente em casa de um tio para minimizar o problema que seria três bocas a comer. Mas hoje é véspera de paz, de reconciliação que se pretende duradouro e ininterrupto. É tempo de deitar para trás ressentimentos, é véspera do nascimento do Menino Jesus. Zulmira fitava o lume enquanto as suas mãos acariciavam a boneca de trapos e o pensamento viajava para outras vésperas de Natal passadas, de mesa mais abastada em pessoas, doces, bolos, carne de vinha d'alhos, semilhas, batata doce, batata de pimpinela, pimpinelas e as gostosas torradas fritas em banha de porco. Hoje a ceia será a dois e mais pobrezinha em comida.
O que me vai dar o Menino Jesus esta noite, perguntou Zulmira a olhar para o lume da lareira e a imaginar um infindável leque de brinquedos à sua medida e à medida do seu tempo, Já puseste o sapatinho no presépio, perguntou a mãe sabendo já a resposta, Sim, já está lá desde anteontem junto às cearas, na lapinha, O que pediste ao Menino Jesus, Um vestido novo para a Matilde, a boneca de trapos de Zulmira, Sabes que há muitos meninos e meninas pobrezinhos no mundo, e por serem muitos o Menino Jesus poderá não ter um brinquedo para todos, constatou Dona Adelaide, achando oportuno o momento para abordar o assunto e de forma a não decepcionar os normais anseios de um criança. Dito isto o silêncio feriu o coração de Dona Adelaide e esfriou os normais anseios da criança Zulmira. Prudentemente Dona Adelaide reiniciou o diálogo, Sabes Zulmira, desta vez o Menino Jesus talvez não te traga o vestido para a Matilde. Zulmira nada disse, apertou Matilde junto ao coração e continuou a olhar o lume moribundo pela humidade do dia de nevoeiro. O silêncio insistiu novamente em ferir o coração de Dona Adelaide fazendo-lhe cair uma tímida lágrima. O mesmo silêncio insistiu em resfriar ainda mais as ânsias de Zulmira condensando-lhe também uma lágrima tímida que lhe correu pela face abaixo até ser absorvida pela sua boneca de trapos. As duas lágrimas não se viram, estavam de costas voltadas, Dona Adelaide a olhar para o bordado no qual não bordava, apenas o olhava como pretexto de não mostrar a sua tristeza, e Zulmira estava agora a olhar para o nevoeiro que a observava da rua. A Maltilde não vai ter um vestido novo este ano, perguntou Zulmira para confirmar o que não queria ouvir, Talvez não, este ano o Menino Jesus tem muito trabalho, há muitos meninos a pedir prendas, Não faz mal, a Matilde não se importa de esperar mais um ano. A resposta surpreendeu sua mãe, conhecia o bom coração de Zulmira mas ainda não esperava uma resposta tão lúcida e amadurecida de uma criança da sua idade, Mas não te preocupes, quando acabar este bordado fazemos um novo vestido para a Maltide com um restinho de pano que tenho aqui no cesto do bordado, disse a mãe. Ao ouvir isto, Zulmira tornou a olhar para o lume da lareira e deixou-se levar novamente pela imaginação para outros lugares e para outros tempos.
Uuuuuuu, eeeeei, vizinha, vizinha, ouviram uma a voz vinda da rua, da vereda. Dona Adelaide achegou-se à porta da cozinha, olhou ao longo do terreiro ladeado à direita de assentos de pedra assentada a seco e coberto de vides descascadas de folhas pelo Outono que acabara, e viu à entrada um vulto no nevoeiro que não conseguiu identificar. O diálogo encetado foi em voz alta, ele na vereda à entrada do terreiro junto aos primeiros degraus, ela à porta da cozinha, a uns dez metros. Ela não se aproximou, o receio pelo desconhecido assim o exigia, Parece um mendigo, pensou Dona Adelaide. Educadamente, tirando o barrete de orelhas que lhe cobria a cabeleira, Maltrapilho pediu para entrar. Receosa negou. Educadamente Maltrapilho insistiu para entrar. Receosa e teimosamente negou o avanço. E nesta teimosia do aproxima ou não, Zulmira, ao ouvir o arranque da conversa que não queria pegar entre a sua mãe e o desconhecido, aproximou-se da entrada da cozinha deixando Matilde junto à lareira, encostou as mãos arroxeadas pelo frio à forra carunchosa da porta, e nas costas das mãos arrimou e arrefeceu a face esquerda que contrastava com a ebulição curiosa da sua visão direita a fitar Maltrapilho à entrada do terreiro. Mantendo o corpo escondido, fez um esforço para furar o nevoeiro com o olhar e focar o rosto de Maltrapilho, mas o vulto continuava irreconhecível àquela distância. Estranhamente e em segundos o nevoeiro abriu, o sol brilhou, e o que há segundos estava obstruído pelo nevoeiro cerrado passou a estar claro e nítido. As forças do universo ao aspirar o nevoeiro em segundos, fazendo-se luz, muita luz, parecem ter atendido à curiosidade de Zulmira, ou, atendido às intenções de Maltrapilho que fazia questão em trocar com ela qualquer coisa que só num propício ambiente de espírito natalício se pode trocar. As forças do universo enobreceram o momento. Zulmira não tirou o olhar direito do cabeludo e barbudo maltrapilho de saca de serapilheira às costas, agora de cabeça coberta com o barrete de orelhas, de lã. As feições que agora via com mais nitidez eram-lhe familiares, e por isso centrou ainda mais a sua atenção no estranho tentando se lembrar de onde o conhecia. Maltrapilho continuava a olhar Zulmira, continuava a olhar a sua meia face fora da porta, o seu olho grande e acastanhado que não disfarçava a sua curiosidade. Olhando-a, Zulmira apercebeu-se de um olhar meigo, dum sorriso sincero e compadecido, duma expressão clemente no estranho mendigo. O momento foi o suficiente para se estabelecer entre os dois uma empatia incompreensível para Zulmira, por ser criança, mas habitual para Maltrapilho que costuma cativar e marcar encontros inesperados com certas pessoas em determinados lugares e em determinados momentos. Essa empatia, este encontro, nada têm a ver com feições, com trajados, com visão a olho nu, mas sim com uma intemporalidade espiritual que os saberes do mundo têm dificuldade em explicar. Talvez no fim da história compreendam, talvez não. Retomando o discurso, o encontro entre estes dois seres parece ter sido agendado por Deus, apenas para reforçar o alento de mãe e filha para a vida que nessas alturas não era fácil. Felizmente a pobreza e a miséria eram apenas materiais, e Zulmira já dera provas disso no pouco que falou e expressou até agora. De repente e incompreensivelmente as nuvens acinzentaram novamente o céu, o nevoeiro voltou a cerrar o ambiente e umas pequenas gotas frias de chuva começaram a cair. O que quer homem de Deus, perguntou Dona Adelaide, Quero comida, não tem nada para me matar a fome, perguntou Maltrapilho, Mal temos para nós ó homem, Qualquer coisa arremedeia, pediu mais uma vez Maltrapilho, Ó homem, já disse que não temos nada para lhe dar, só temos umas folhas de coives para a Ceia, com os olhos humedecidos, não pelo nevoeiro, tentou assim convencer o estranho de que nada tinham para lhe ajudar a enganar a fome, Nem temos para amanha nem para depois de amanhã, argumentou novamente Dona Adelaide para provar que realmente nada tinham para lhe dar, Podemos dar-lhe uma folha de coive, mãe, sugeriu Zulmira, entrando na conversa. Perante esta sugestão, Dona Adelaide emudeceu por instantes e o silêncio, agora a três, tomou novamente conta do momento e do lugar. A compaixão revelada por Zulmira surpreendeu novamente e abriu o coração de Dona Adelaide à caridade para com Maltrapilho. Por favor, dê-ma licença para entrar, Dona Adelaide, Como sabe o meu nome, perguntou surpreendida, Dê-ma licença por favor, insistiu o Maltrapilho compadecido pelo olhar de Zulmira e fazendo de conta que não percebeu a pergunta de Dona Adelaide. Olharam-se mãe e filha, comunicando o que ainda hoje não se sabe o quê. Entre, mas agradecia que não demorasse, pediu receosa perante o desconhecido. Maltrapilho desceu os degraus da entrada, aproximou-se e arriou junto aos pés de Dona Adelaide, e perante os olhos de Zulmira, a pesada saca de serapilheira que trazia às costas. Abriu-a e de lá tirou uma posta de carne de porco embrulhada em folhas de coives, com pele, febra e gordura, uma outra posta só de febra de porco também embrulhada em coives, duas batatas doces, duas batatas de pimpinela, uma mão-cheia de semilhas, duas pimpinelas, um punhado de castanhas secas e um bocado de tecido de linho, oferecendo-os. Então, há bocado pediu comida, e agora dá-nos a comida que tem, perguntou surpreendida, Hei-de arranjar mais, o dia ainda não acabou, quem anda no caminho sempre encontra alguma coisa para matar a fome. Maltrapilho pôs a saca ao ombro, agora mais leve, desejou, Boas Festas, voltou-se e afastou-se. Enquanto se aproximava da saída Dona Adelaide agradeceu-lhe, Obrigado, Zulmira seguiu-lhe o exemplo, Obrigado. Ao chegar à vereda Dona Adelaide intrigada perguntou-lhe já em voz alta, E o linho é para quê, Maltrapilho parou, virou-se, olhou para Zulmira e após uns segundos, como a querer decidir se dizia ou não, disse, É para o vestido de Matilde. Mais uma vez o silêncio tomou conta do momento e do lugar. Mãe e filha não perceberam como Maltrapilho conhecia Matilde. Zulmira suspeitou então quem era Maltrapilho, mas nada disse, guardou o seu segredo até ao dia em que teve certeza de quem se tratava. Após este estranho encontro uma sensação de paz encheu-lhes a alma fazendo esquecer o corpo faminto. Maltrapilho afastou-se, desapareceu no nevoeiro e até hoje nunca mais foi visto por estas bandas.
Boas Festas para todos, sem excepções!
Fonte: Zulmira Ganança (recordações da infância)
Publicado no Suplemento Especial Natal 2009 do Diário de Notícias da Madeira em 25 de Dezembro de 2009
Escusado será dizer que ambas, junto ao calor da lareira, aqueciam os pés descalços envoltos em serapilheira. Os corpos, com a pouca roupa que tinham, aqueciam com o sangue tépido que lhes vinha dos pés. Dona Adelaide dava uns pontos no bordado que começara há mais de um mês, não conseguindo acabá-lo, antes da Festa como previsto, a vista já não é o que era, para ajudar a abastecer a mesa antes da Missa do Galo que tem vindo a ser preparada na última semana pelos paroquianos. Zulmira abraçava uma boneca de trapos, oferecida pelo Menino Jesus há anos, aquecendo-a com o pouco calor do corpo que lhe vinha dos pés. Mãe, o que vai ser a nossa Ceia de hoje, perguntou sentindo já a presença da fome, Não te preocupes filha, Nosso Senhor e o Menino Jesus hão-de nos deparar qualquer coisa para a Ceia, respondeu para não a desiludir. Zulmira, com a boneca ao colo e com a fome na barriga, olhou para as chamas e orou em pensamento para o Menino Jesus lhes deparar coisas boas. No recanto da lareira, um tacho com alguma água ainda fria, colhida na fonte mais próxima já que rede pública de água potável ainda não existia, esperava ser colocada sobre o lume com umas folhas de coives, já prontas num pequeno alguidar de porcelana barata sobre a mesa enegrecida pelo fumo e pelo tempo, que depois de cozidas serão servidas como a ceia desta véspera de Natal.
Estavam sozinhas em casa por razões familiares que não interessam aqui mencionar, porque é véspera de Natal e não vale a pena aqui esmiuçar desentendimentos que fazem da vida uma cruz difícil de carregar. O marido não está, emigrou à procura de melhor sorte. O outro filho também não, vive temporariamente em casa de um tio para minimizar o problema que seria três bocas a comer. Mas hoje é véspera de paz, de reconciliação que se pretende duradouro e ininterrupto. É tempo de deitar para trás ressentimentos, é véspera do nascimento do Menino Jesus. Zulmira fitava o lume enquanto as suas mãos acariciavam a boneca de trapos e o pensamento viajava para outras vésperas de Natal passadas, de mesa mais abastada em pessoas, doces, bolos, carne de vinha d'alhos, semilhas, batata doce, batata de pimpinela, pimpinelas e as gostosas torradas fritas em banha de porco. Hoje a ceia será a dois e mais pobrezinha em comida.
O que me vai dar o Menino Jesus esta noite, perguntou Zulmira a olhar para o lume da lareira e a imaginar um infindável leque de brinquedos à sua medida e à medida do seu tempo, Já puseste o sapatinho no presépio, perguntou a mãe sabendo já a resposta, Sim, já está lá desde anteontem junto às cearas, na lapinha, O que pediste ao Menino Jesus, Um vestido novo para a Matilde, a boneca de trapos de Zulmira, Sabes que há muitos meninos e meninas pobrezinhos no mundo, e por serem muitos o Menino Jesus poderá não ter um brinquedo para todos, constatou Dona Adelaide, achando oportuno o momento para abordar o assunto e de forma a não decepcionar os normais anseios de um criança. Dito isto o silêncio feriu o coração de Dona Adelaide e esfriou os normais anseios da criança Zulmira. Prudentemente Dona Adelaide reiniciou o diálogo, Sabes Zulmira, desta vez o Menino Jesus talvez não te traga o vestido para a Matilde. Zulmira nada disse, apertou Matilde junto ao coração e continuou a olhar o lume moribundo pela humidade do dia de nevoeiro. O silêncio insistiu novamente em ferir o coração de Dona Adelaide fazendo-lhe cair uma tímida lágrima. O mesmo silêncio insistiu em resfriar ainda mais as ânsias de Zulmira condensando-lhe também uma lágrima tímida que lhe correu pela face abaixo até ser absorvida pela sua boneca de trapos. As duas lágrimas não se viram, estavam de costas voltadas, Dona Adelaide a olhar para o bordado no qual não bordava, apenas o olhava como pretexto de não mostrar a sua tristeza, e Zulmira estava agora a olhar para o nevoeiro que a observava da rua. A Maltilde não vai ter um vestido novo este ano, perguntou Zulmira para confirmar o que não queria ouvir, Talvez não, este ano o Menino Jesus tem muito trabalho, há muitos meninos a pedir prendas, Não faz mal, a Matilde não se importa de esperar mais um ano. A resposta surpreendeu sua mãe, conhecia o bom coração de Zulmira mas ainda não esperava uma resposta tão lúcida e amadurecida de uma criança da sua idade, Mas não te preocupes, quando acabar este bordado fazemos um novo vestido para a Maltide com um restinho de pano que tenho aqui no cesto do bordado, disse a mãe. Ao ouvir isto, Zulmira tornou a olhar para o lume da lareira e deixou-se levar novamente pela imaginação para outros lugares e para outros tempos.
Uuuuuuu, eeeeei, vizinha, vizinha, ouviram uma a voz vinda da rua, da vereda. Dona Adelaide achegou-se à porta da cozinha, olhou ao longo do terreiro ladeado à direita de assentos de pedra assentada a seco e coberto de vides descascadas de folhas pelo Outono que acabara, e viu à entrada um vulto no nevoeiro que não conseguiu identificar. O diálogo encetado foi em voz alta, ele na vereda à entrada do terreiro junto aos primeiros degraus, ela à porta da cozinha, a uns dez metros. Ela não se aproximou, o receio pelo desconhecido assim o exigia, Parece um mendigo, pensou Dona Adelaide. Educadamente, tirando o barrete de orelhas que lhe cobria a cabeleira, Maltrapilho pediu para entrar. Receosa negou. Educadamente Maltrapilho insistiu para entrar. Receosa e teimosamente negou o avanço. E nesta teimosia do aproxima ou não, Zulmira, ao ouvir o arranque da conversa que não queria pegar entre a sua mãe e o desconhecido, aproximou-se da entrada da cozinha deixando Matilde junto à lareira, encostou as mãos arroxeadas pelo frio à forra carunchosa da porta, e nas costas das mãos arrimou e arrefeceu a face esquerda que contrastava com a ebulição curiosa da sua visão direita a fitar Maltrapilho à entrada do terreiro. Mantendo o corpo escondido, fez um esforço para furar o nevoeiro com o olhar e focar o rosto de Maltrapilho, mas o vulto continuava irreconhecível àquela distância. Estranhamente e em segundos o nevoeiro abriu, o sol brilhou, e o que há segundos estava obstruído pelo nevoeiro cerrado passou a estar claro e nítido. As forças do universo ao aspirar o nevoeiro em segundos, fazendo-se luz, muita luz, parecem ter atendido à curiosidade de Zulmira, ou, atendido às intenções de Maltrapilho que fazia questão em trocar com ela qualquer coisa que só num propício ambiente de espírito natalício se pode trocar. As forças do universo enobreceram o momento. Zulmira não tirou o olhar direito do cabeludo e barbudo maltrapilho de saca de serapilheira às costas, agora de cabeça coberta com o barrete de orelhas, de lã. As feições que agora via com mais nitidez eram-lhe familiares, e por isso centrou ainda mais a sua atenção no estranho tentando se lembrar de onde o conhecia. Maltrapilho continuava a olhar Zulmira, continuava a olhar a sua meia face fora da porta, o seu olho grande e acastanhado que não disfarçava a sua curiosidade. Olhando-a, Zulmira apercebeu-se de um olhar meigo, dum sorriso sincero e compadecido, duma expressão clemente no estranho mendigo. O momento foi o suficiente para se estabelecer entre os dois uma empatia incompreensível para Zulmira, por ser criança, mas habitual para Maltrapilho que costuma cativar e marcar encontros inesperados com certas pessoas em determinados lugares e em determinados momentos. Essa empatia, este encontro, nada têm a ver com feições, com trajados, com visão a olho nu, mas sim com uma intemporalidade espiritual que os saberes do mundo têm dificuldade em explicar. Talvez no fim da história compreendam, talvez não. Retomando o discurso, o encontro entre estes dois seres parece ter sido agendado por Deus, apenas para reforçar o alento de mãe e filha para a vida que nessas alturas não era fácil. Felizmente a pobreza e a miséria eram apenas materiais, e Zulmira já dera provas disso no pouco que falou e expressou até agora. De repente e incompreensivelmente as nuvens acinzentaram novamente o céu, o nevoeiro voltou a cerrar o ambiente e umas pequenas gotas frias de chuva começaram a cair. O que quer homem de Deus, perguntou Dona Adelaide, Quero comida, não tem nada para me matar a fome, perguntou Maltrapilho, Mal temos para nós ó homem, Qualquer coisa arremedeia, pediu mais uma vez Maltrapilho, Ó homem, já disse que não temos nada para lhe dar, só temos umas folhas de coives para a Ceia, com os olhos humedecidos, não pelo nevoeiro, tentou assim convencer o estranho de que nada tinham para lhe ajudar a enganar a fome, Nem temos para amanha nem para depois de amanhã, argumentou novamente Dona Adelaide para provar que realmente nada tinham para lhe dar, Podemos dar-lhe uma folha de coive, mãe, sugeriu Zulmira, entrando na conversa. Perante esta sugestão, Dona Adelaide emudeceu por instantes e o silêncio, agora a três, tomou novamente conta do momento e do lugar. A compaixão revelada por Zulmira surpreendeu novamente e abriu o coração de Dona Adelaide à caridade para com Maltrapilho. Por favor, dê-ma licença para entrar, Dona Adelaide, Como sabe o meu nome, perguntou surpreendida, Dê-ma licença por favor, insistiu o Maltrapilho compadecido pelo olhar de Zulmira e fazendo de conta que não percebeu a pergunta de Dona Adelaide. Olharam-se mãe e filha, comunicando o que ainda hoje não se sabe o quê. Entre, mas agradecia que não demorasse, pediu receosa perante o desconhecido. Maltrapilho desceu os degraus da entrada, aproximou-se e arriou junto aos pés de Dona Adelaide, e perante os olhos de Zulmira, a pesada saca de serapilheira que trazia às costas. Abriu-a e de lá tirou uma posta de carne de porco embrulhada em folhas de coives, com pele, febra e gordura, uma outra posta só de febra de porco também embrulhada em coives, duas batatas doces, duas batatas de pimpinela, uma mão-cheia de semilhas, duas pimpinelas, um punhado de castanhas secas e um bocado de tecido de linho, oferecendo-os. Então, há bocado pediu comida, e agora dá-nos a comida que tem, perguntou surpreendida, Hei-de arranjar mais, o dia ainda não acabou, quem anda no caminho sempre encontra alguma coisa para matar a fome. Maltrapilho pôs a saca ao ombro, agora mais leve, desejou, Boas Festas, voltou-se e afastou-se. Enquanto se aproximava da saída Dona Adelaide agradeceu-lhe, Obrigado, Zulmira seguiu-lhe o exemplo, Obrigado. Ao chegar à vereda Dona Adelaide intrigada perguntou-lhe já em voz alta, E o linho é para quê, Maltrapilho parou, virou-se, olhou para Zulmira e após uns segundos, como a querer decidir se dizia ou não, disse, É para o vestido de Matilde. Mais uma vez o silêncio tomou conta do momento e do lugar. Mãe e filha não perceberam como Maltrapilho conhecia Matilde. Zulmira suspeitou então quem era Maltrapilho, mas nada disse, guardou o seu segredo até ao dia em que teve certeza de quem se tratava. Após este estranho encontro uma sensação de paz encheu-lhes a alma fazendo esquecer o corpo faminto. Maltrapilho afastou-se, desapareceu no nevoeiro e até hoje nunca mais foi visto por estas bandas.
Boas Festas para todos, sem excepções!
Fonte: Zulmira Ganança (recordações da infância)
Publicado no Suplemento Especial Natal 2009 do Diário de Notícias da Madeira em 25 de Dezembro de 2009
quarta-feira, 3 de março de 2010
Mal-assadas
Atafulharam o estômago de mal-assadas ao almoço, a tarde iria ser longa. Juntaram-se e seguiram em cortejo por veredas e estradas pescando mascarados à medida que iam passando por vários sítios. Acabavam o cortejo parando normalmente num cruzamento ou num largo onde houvesse uma mercearia para o abastecimento de vinho seco. Largos e cruzamentos não faltavam pela ruralidade adentro. Ao som do bailinho de despique, que animava e compassava o cortejo, os mascarados pulavam, dançavam e apupavam ora para se fazerem ver, ora para assustar os mais pequenos. Os que sabiam cantar e não se rogavam a tirar a máscara, despicavam uma quadra de quando em vez. Chegados ao cruzamento, ou largo, e já em fim de tarde, algumas quadras já não se percebiam bem, a língua tornara-se pesada e difícil de controlar de tanto vinho emborcado. Mesmo em estado de embriaguês avançado, o levadeiro, o homem do vinho, andava sempre de jarro cheio numa mão e de copo cheio na noutra para quem quisesse emborcar mais um. Alguns passos de dança mal trocados de alguns confundiam-se com os passos de dança certinhos dos que comedidamente beberam. Alguns tentavam manter certa as suas quadras, em rima e ao compasso do som do bailinho, mas era difícil. Mesmo os instrumentos musicais, o acordeão do Zé do Búzio, o rajão do Zé Lambulha, a viola do Zé Armado, o pandeiro do Zé Padeiro e as castanholas do Zé Castanha, já não estavam coordenados a cem por cento. A harmonia no tocar dos instrumentos, no cantar e no dançar deixava muito a desejar, há muito que deixara de existir neste cortejo. Embriagados também estavam alguns dos que já se encontravam no local à espera dos mascarados. Já dizia o meu avô que muita gente junta dá confusão, e gente embriagada muito mais. Estavam assim criadas as condições para a desordem. Rivalidades entre sítios vinham à tona, ressentimentos antigos não sarados manifestavam-se, dívidas por pagar vinham à lembrança, outras contas por ajustar esfriavam olhares e fervilhavam gestos. Uma quadra despicada com mais provocação, um encontrão propositado ou despropositado na confusão, um palavrão bem dirigido ou mal dirigido a alguém, eram normalmente o rastilho para uma batalha campal. O que era para ser uma festa, acabava em pancadaria. O largo passava a ser um ringue sem cordas laterias, uma arena empoeirada sem uma área delimitada. Os outros, os espectadores, inconscientemente, e respeitando uma distância de segurança, formavam uma roda para apreciar o espectáculo: o soco que acertou e fez sangrar; o soco que não acertou mas que acertará na proxima vez; o pontapé que acertou nas aduelas de um e fez exprimir um gemido; o pontapé que não acertou porque o outro se desviou; o pontapé que não acertou mas que de certeza irá acertar da próxima vez; aquele que caiu ao ser rasteirado; aquele que conseguiu se aguentar depois de ter levado um pontapé nos peitos; aquele que não conseguiu se aguentar depois de levar um outro pontapé do mesmo pé. Enfim, ingredientes que enchiam o olho de quem assistia, kickboxing desengonçado ao vivo e de borla. Na confusão da pancadaria as suiças e bigodes fartos, os olhos avermelhados de embriaguês e de raiva, mostravam-se com o cair das máscaras. Contam meus ascendentes que antigamente era bem pior, com navalhadas, foiçadas, pauladas, feridos, e com polícia, quando chegava, a acalmar os ânimos. Aquelas cenas ficaram gravadas na memória dos mais pequenos. Vistas agora, com olhos mais crescidos e maduros, aquele cenário era muito triste, um mau exemplo dado pelos mais crescidos aos mais novos.
Felizmente os tempos mudaram. Os mais pequenos daquele tempo aprenderam a lição e evoluiram. Continuam a se juntar, organizados ou trapalhados, para festejar o carnaval. Disfarçam-se e juntam-se não para a pancadaria mas para confraternizar e divertir-se. Passados estes anos, a tradição das mal-assadas continua. E cai sempre bem no estômago e nas recordações um bom e comedido punhado de mal-assadas, moles ou duras, salpicadas de açucar ou lambuzadas em mel de cana. Saboreai-as bem. Pena que só sejam feitas uma vez por ano.
Felizmente os tempos mudaram. Os mais pequenos daquele tempo aprenderam a lição e evoluiram. Continuam a se juntar, organizados ou trapalhados, para festejar o carnaval. Disfarçam-se e juntam-se não para a pancadaria mas para confraternizar e divertir-se. Passados estes anos, a tradição das mal-assadas continua. E cai sempre bem no estômago e nas recordações um bom e comedido punhado de mal-assadas, moles ou duras, salpicadas de açucar ou lambuzadas em mel de cana. Saboreai-as bem. Pena que só sejam feitas uma vez por ano.
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