quarta-feira, 3 de março de 2010

Mal-assadas

Atafulharam o estômago de mal-assadas ao almoço, a tarde iria ser longa. Juntaram-se e seguiram em cortejo por veredas e estradas pescando mascarados à medida que iam passando por vários sítios. Acabavam o cortejo parando normalmente num cruzamento ou num largo onde houvesse uma mercearia para o abastecimento de vinho seco. Largos e cruzamentos não faltavam pela ruralidade adentro. Ao som do bailinho de despique, que animava e compassava o cortejo, os mascarados pulavam, dançavam e apupavam ora para se fazerem ver, ora para assustar os mais pequenos. Os que sabiam cantar e não se rogavam a tirar a máscara, despicavam uma quadra de quando em vez. Chegados ao cruzamento, ou largo, e já em fim de tarde, algumas quadras já não se percebiam bem, a língua tornara-se pesada e difícil de controlar de tanto vinho emborcado. Mesmo em estado de embriaguês avançado, o levadeiro, o homem do vinho, andava sempre de jarro cheio numa mão e de copo cheio na noutra para quem quisesse emborcar mais um. Alguns passos de dança mal trocados de alguns confundiam-se com os passos de dança certinhos dos que comedidamente beberam. Alguns tentavam manter certa as suas quadras, em rima e ao compasso do som do bailinho, mas era difícil. Mesmo os instrumentos musicais, o acordeão do Zé do Búzio, o rajão do Zé Lambulha, a viola do Zé Armado, o pandeiro do Zé Padeiro e as castanholas do Zé Castanha, já não estavam coordenados a cem por cento. A harmonia no tocar dos instrumentos, no cantar e no dançar deixava muito a desejar, há muito que deixara de existir neste cortejo. Embriagados também estavam alguns dos que já se encontravam no local à espera dos mascarados. Já dizia o meu avô que muita gente junta dá confusão, e gente embriagada muito mais. Estavam assim criadas as condições para a desordem. Rivalidades entre sítios vinham à tona, ressentimentos antigos não sarados manifestavam-se, dívidas por pagar vinham à lembrança, outras contas por ajustar esfriavam olhares e fervilhavam gestos. Uma quadra despicada com mais provocação, um encontrão propositado ou despropositado na confusão, um palavrão bem dirigido ou mal dirigido a alguém, eram normalmente o rastilho para uma batalha campal. O que era para ser uma festa, acabava em pancadaria. O largo passava a ser um ringue sem cordas laterias, uma arena empoeirada sem uma área delimitada. Os outros, os espectadores, inconscientemente, e respeitando uma distância de segurança, formavam uma roda para apreciar o espectáculo: o soco que acertou e fez sangrar; o soco que não acertou mas que acertará na proxima vez; o pontapé que acertou nas aduelas de um e fez exprimir um gemido; o pontapé que não acertou porque o outro se desviou; o pontapé que não acertou mas que de certeza irá acertar da próxima vez; aquele que caiu ao ser rasteirado; aquele que conseguiu se aguentar depois de ter levado um pontapé nos peitos; aquele que não conseguiu se aguentar depois de levar um outro pontapé do mesmo pé. Enfim, ingredientes que enchiam o olho de quem assistia, kickboxing desengonçado ao vivo e de borla. Na confusão da pancadaria as suiças e bigodes fartos, os olhos avermelhados de embriaguês e de raiva, mostravam-se com o cair das máscaras. Contam meus ascendentes que antigamente era bem pior, com navalhadas, foiçadas, pauladas, feridos, e com polícia, quando chegava, a acalmar os ânimos. Aquelas cenas ficaram gravadas na memória dos mais pequenos. Vistas agora, com olhos mais crescidos e maduros, aquele cenário era muito triste, um mau exemplo dado pelos mais crescidos aos mais novos.
Felizmente os tempos mudaram. Os mais pequenos daquele tempo aprenderam a lição e evoluiram. Continuam a se juntar, organizados ou trapalhados, para festejar o carnaval. Disfarçam-se e juntam-se não para a pancadaria mas para confraternizar e divertir-se. Passados estes anos, a tradição das mal-assadas continua. E cai sempre bem no estômago e nas recordações um bom e comedido punhado de mal-assadas, moles ou duras, salpicadas de açucar ou lambuzadas em mel de cana. Saboreai-as bem. Pena que só sejam feitas uma vez por ano.

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