Zulmira e Dona Adelaide, sua mãe, sentaram-se junto à lareira da pequena cozinha adjacente à sua modesta casa. Dona Adelaide colocou mais uma pinha e um graveto para não deixar apagar o lume que a humidade do frio e matreiro nevoeiro deste fim de tarde de Véspera de Natal insistia teimosamente em apagar. Apesar de fechada, a porta deixava passar o frio e a humidade do nevoeiro por alguns buracos que o caruncho desenhou nos últimos anos e que a falta de posses não possibilitou o conserto. Caruncho não falta nesta cozinha de odor fumado enegrecida pela lenha queimada e pelo petróleo queimado também pela lamparina que, apesar de antiga e com o vidro rachado, vai alumiando nos dias e nas noites escuras. A lenha e as pinhas desfalecidas pela humidade para a combustão, são poucas e têm que ser racionadas de forma a abastecer a chama da lareira da pequena cozinha, neste resto de véspera de Natal e nos dias seguintes, Natal e primeiras oitavas. Se o tempo melhorar irão à cata de lenha e de pinhas, se houver, nos pinhais próximos, porque nessa altura toda a lenha, graveto, pinha e musgo eram aproveitados. As vides para arder só estarão disponíveis após a poda, lá para fins de Janeiro, Fevereiro.
Escusado será dizer que ambas, junto ao calor da lareira, aqueciam os pés descalços envoltos em serapilheira. Os corpos, com a pouca roupa que tinham, aqueciam com o sangue tépido que lhes vinha dos pés. Dona Adelaide dava uns pontos no bordado que começara há mais de um mês, não conseguindo acabá-lo, antes da Festa como previsto, a vista já não é o que era, para ajudar a abastecer a mesa antes da Missa do Galo que tem vindo a ser preparada na última semana pelos paroquianos. Zulmira abraçava uma boneca de trapos, oferecida pelo Menino Jesus há anos, aquecendo-a com o pouco calor do corpo que lhe vinha dos pés. Mãe, o que vai ser a nossa Ceia de hoje, perguntou sentindo já a presença da fome, Não te preocupes filha, Nosso Senhor e o Menino Jesus hão-de nos deparar qualquer coisa para a Ceia, respondeu para não a desiludir. Zulmira, com a boneca ao colo e com a fome na barriga, olhou para as chamas e orou em pensamento para o Menino Jesus lhes deparar coisas boas. No recanto da lareira, um tacho com alguma água ainda fria, colhida na fonte mais próxima já que rede pública de água potável ainda não existia, esperava ser colocada sobre o lume com umas folhas de coives, já prontas num pequeno alguidar de porcelana barata sobre a mesa enegrecida pelo fumo e pelo tempo, que depois de cozidas serão servidas como a ceia desta véspera de Natal.
Estavam sozinhas em casa por razões familiares que não interessam aqui mencionar, porque é véspera de Natal e não vale a pena aqui esmiuçar desentendimentos que fazem da vida uma cruz difícil de carregar. O marido não está, emigrou à procura de melhor sorte. O outro filho também não, vive temporariamente em casa de um tio para minimizar o problema que seria três bocas a comer. Mas hoje é véspera de paz, de reconciliação que se pretende duradouro e ininterrupto. É tempo de deitar para trás ressentimentos, é véspera do nascimento do Menino Jesus. Zulmira fitava o lume enquanto as suas mãos acariciavam a boneca de trapos e o pensamento viajava para outras vésperas de Natal passadas, de mesa mais abastada em pessoas, doces, bolos, carne de vinha d'alhos, semilhas, batata doce, batata de pimpinela, pimpinelas e as gostosas torradas fritas em banha de porco. Hoje a ceia será a dois e mais pobrezinha em comida.
O que me vai dar o Menino Jesus esta noite, perguntou Zulmira a olhar para o lume da lareira e a imaginar um infindável leque de brinquedos à sua medida e à medida do seu tempo, Já puseste o sapatinho no presépio, perguntou a mãe sabendo já a resposta, Sim, já está lá desde anteontem junto às cearas, na lapinha, O que pediste ao Menino Jesus, Um vestido novo para a Matilde, a boneca de trapos de Zulmira, Sabes que há muitos meninos e meninas pobrezinhos no mundo, e por serem muitos o Menino Jesus poderá não ter um brinquedo para todos, constatou Dona Adelaide, achando oportuno o momento para abordar o assunto e de forma a não decepcionar os normais anseios de um criança. Dito isto o silêncio feriu o coração de Dona Adelaide e esfriou os normais anseios da criança Zulmira. Prudentemente Dona Adelaide reiniciou o diálogo, Sabes Zulmira, desta vez o Menino Jesus talvez não te traga o vestido para a Matilde. Zulmira nada disse, apertou Matilde junto ao coração e continuou a olhar o lume moribundo pela humidade do dia de nevoeiro. O silêncio insistiu novamente em ferir o coração de Dona Adelaide fazendo-lhe cair uma tímida lágrima. O mesmo silêncio insistiu em resfriar ainda mais as ânsias de Zulmira condensando-lhe também uma lágrima tímida que lhe correu pela face abaixo até ser absorvida pela sua boneca de trapos. As duas lágrimas não se viram, estavam de costas voltadas, Dona Adelaide a olhar para o bordado no qual não bordava, apenas o olhava como pretexto de não mostrar a sua tristeza, e Zulmira estava agora a olhar para o nevoeiro que a observava da rua. A Maltilde não vai ter um vestido novo este ano, perguntou Zulmira para confirmar o que não queria ouvir, Talvez não, este ano o Menino Jesus tem muito trabalho, há muitos meninos a pedir prendas, Não faz mal, a Matilde não se importa de esperar mais um ano. A resposta surpreendeu sua mãe, conhecia o bom coração de Zulmira mas ainda não esperava uma resposta tão lúcida e amadurecida de uma criança da sua idade, Mas não te preocupes, quando acabar este bordado fazemos um novo vestido para a Maltide com um restinho de pano que tenho aqui no cesto do bordado, disse a mãe. Ao ouvir isto, Zulmira tornou a olhar para o lume da lareira e deixou-se levar novamente pela imaginação para outros lugares e para outros tempos.
Uuuuuuu, eeeeei, vizinha, vizinha, ouviram uma a voz vinda da rua, da vereda. Dona Adelaide achegou-se à porta da cozinha, olhou ao longo do terreiro ladeado à direita de assentos de pedra assentada a seco e coberto de vides descascadas de folhas pelo Outono que acabara, e viu à entrada um vulto no nevoeiro que não conseguiu identificar. O diálogo encetado foi em voz alta, ele na vereda à entrada do terreiro junto aos primeiros degraus, ela à porta da cozinha, a uns dez metros. Ela não se aproximou, o receio pelo desconhecido assim o exigia, Parece um mendigo, pensou Dona Adelaide. Educadamente, tirando o barrete de orelhas que lhe cobria a cabeleira, Maltrapilho pediu para entrar. Receosa negou. Educadamente Maltrapilho insistiu para entrar. Receosa e teimosamente negou o avanço. E nesta teimosia do aproxima ou não, Zulmira, ao ouvir o arranque da conversa que não queria pegar entre a sua mãe e o desconhecido, aproximou-se da entrada da cozinha deixando Matilde junto à lareira, encostou as mãos arroxeadas pelo frio à forra carunchosa da porta, e nas costas das mãos arrimou e arrefeceu a face esquerda que contrastava com a ebulição curiosa da sua visão direita a fitar Maltrapilho à entrada do terreiro. Mantendo o corpo escondido, fez um esforço para furar o nevoeiro com o olhar e focar o rosto de Maltrapilho, mas o vulto continuava irreconhecível àquela distância. Estranhamente e em segundos o nevoeiro abriu, o sol brilhou, e o que há segundos estava obstruído pelo nevoeiro cerrado passou a estar claro e nítido. As forças do universo ao aspirar o nevoeiro em segundos, fazendo-se luz, muita luz, parecem ter atendido à curiosidade de Zulmira, ou, atendido às intenções de Maltrapilho que fazia questão em trocar com ela qualquer coisa que só num propício ambiente de espírito natalício se pode trocar. As forças do universo enobreceram o momento. Zulmira não tirou o olhar direito do cabeludo e barbudo maltrapilho de saca de serapilheira às costas, agora de cabeça coberta com o barrete de orelhas, de lã. As feições que agora via com mais nitidez eram-lhe familiares, e por isso centrou ainda mais a sua atenção no estranho tentando se lembrar de onde o conhecia. Maltrapilho continuava a olhar Zulmira, continuava a olhar a sua meia face fora da porta, o seu olho grande e acastanhado que não disfarçava a sua curiosidade. Olhando-a, Zulmira apercebeu-se de um olhar meigo, dum sorriso sincero e compadecido, duma expressão clemente no estranho mendigo. O momento foi o suficiente para se estabelecer entre os dois uma empatia incompreensível para Zulmira, por ser criança, mas habitual para Maltrapilho que costuma cativar e marcar encontros inesperados com certas pessoas em determinados lugares e em determinados momentos. Essa empatia, este encontro, nada têm a ver com feições, com trajados, com visão a olho nu, mas sim com uma intemporalidade espiritual que os saberes do mundo têm dificuldade em explicar. Talvez no fim da história compreendam, talvez não. Retomando o discurso, o encontro entre estes dois seres parece ter sido agendado por Deus, apenas para reforçar o alento de mãe e filha para a vida que nessas alturas não era fácil. Felizmente a pobreza e a miséria eram apenas materiais, e Zulmira já dera provas disso no pouco que falou e expressou até agora. De repente e incompreensivelmente as nuvens acinzentaram novamente o céu, o nevoeiro voltou a cerrar o ambiente e umas pequenas gotas frias de chuva começaram a cair. O que quer homem de Deus, perguntou Dona Adelaide, Quero comida, não tem nada para me matar a fome, perguntou Maltrapilho, Mal temos para nós ó homem, Qualquer coisa arremedeia, pediu mais uma vez Maltrapilho, Ó homem, já disse que não temos nada para lhe dar, só temos umas folhas de coives para a Ceia, com os olhos humedecidos, não pelo nevoeiro, tentou assim convencer o estranho de que nada tinham para lhe ajudar a enganar a fome, Nem temos para amanha nem para depois de amanhã, argumentou novamente Dona Adelaide para provar que realmente nada tinham para lhe dar, Podemos dar-lhe uma folha de coive, mãe, sugeriu Zulmira, entrando na conversa. Perante esta sugestão, Dona Adelaide emudeceu por instantes e o silêncio, agora a três, tomou novamente conta do momento e do lugar. A compaixão revelada por Zulmira surpreendeu novamente e abriu o coração de Dona Adelaide à caridade para com Maltrapilho. Por favor, dê-ma licença para entrar, Dona Adelaide, Como sabe o meu nome, perguntou surpreendida, Dê-ma licença por favor, insistiu o Maltrapilho compadecido pelo olhar de Zulmira e fazendo de conta que não percebeu a pergunta de Dona Adelaide. Olharam-se mãe e filha, comunicando o que ainda hoje não se sabe o quê. Entre, mas agradecia que não demorasse, pediu receosa perante o desconhecido. Maltrapilho desceu os degraus da entrada, aproximou-se e arriou junto aos pés de Dona Adelaide, e perante os olhos de Zulmira, a pesada saca de serapilheira que trazia às costas. Abriu-a e de lá tirou uma posta de carne de porco embrulhada em folhas de coives, com pele, febra e gordura, uma outra posta só de febra de porco também embrulhada em coives, duas batatas doces, duas batatas de pimpinela, uma mão-cheia de semilhas, duas pimpinelas, um punhado de castanhas secas e um bocado de tecido de linho, oferecendo-os. Então, há bocado pediu comida, e agora dá-nos a comida que tem, perguntou surpreendida, Hei-de arranjar mais, o dia ainda não acabou, quem anda no caminho sempre encontra alguma coisa para matar a fome. Maltrapilho pôs a saca ao ombro, agora mais leve, desejou, Boas Festas, voltou-se e afastou-se. Enquanto se aproximava da saída Dona Adelaide agradeceu-lhe, Obrigado, Zulmira seguiu-lhe o exemplo, Obrigado. Ao chegar à vereda Dona Adelaide intrigada perguntou-lhe já em voz alta, E o linho é para quê, Maltrapilho parou, virou-se, olhou para Zulmira e após uns segundos, como a querer decidir se dizia ou não, disse, É para o vestido de Matilde. Mais uma vez o silêncio tomou conta do momento e do lugar. Mãe e filha não perceberam como Maltrapilho conhecia Matilde. Zulmira suspeitou então quem era Maltrapilho, mas nada disse, guardou o seu segredo até ao dia em que teve certeza de quem se tratava. Após este estranho encontro uma sensação de paz encheu-lhes a alma fazendo esquecer o corpo faminto. Maltrapilho afastou-se, desapareceu no nevoeiro e até hoje nunca mais foi visto por estas bandas.
Boas Festas para todos, sem excepções!
Fonte: Zulmira Ganança (recordações da infância)
Publicado no Suplemento Especial Natal 2009 do Diário de Notícias da Madeira em 25 de Dezembro de 2009
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