quarta-feira, 24 de março de 2010

O Puto Solitário

Convidou-o a dar uma volta, a pé. Pararam num café e Cara Quadrada ofereceu-lhe um chocolate. O Puto Solitário não percebeu tanta bondade, desconfiou mas não o suficiente para rejeitar a oferta, um chocolate é sempre bem-vindo. Percorreram ambos uns quarteirões ladeados de edifícios altos e de cores degradadas e chegaram a um jardim público ao fim da rua. Alguns sem-abrigo acabavam de jantar o pouco que puderam encontrar ou o pouco que lhes deram. Outros, sem-abrigos, já dormiam, uns para enganar a falta da comida que não encontraram, outros anestesiados pelo álcool. Um casal de namorados mais ao fundo à esquerda ou à direita, não interessa, conversava entre beijos e carícias. Um outro casal ainda mais ao fundo, entre arbustos, era já quase noite, iam já para além dos preliminares. Risos femininos e risos masculinos de excitação e de embriaguês saiam de um bar próximo ao compasso da música de uma rocola. Num banco não muito longe, semi-escondido por detrás do tronco de uma grande árvore, um velho em vias de se tornar um sem-abrigo, o Velho Solitário, observava-os dando as últimas passas no seu cachimbo antigo e companheiro. Não era a primeira vez que via o Cara Quadrada por estas bandas estranhamente acompanhado por alguém desfazado na idade. Sempre que o via acompanhado desta maneira, fazia uma prece apelando a outras forças o bloqueio das más intenções de Cara Quadrada, a sua longa experiência de vida apurou-lhe a intuição, Porque não me correm as coisas bem, questionava-se frustrado Cara Quadrada, momentos depois de cada prece do Velho Solitário, e este não entendia porque Cara Quadrada insistia em vir para este seu território já marcado há algum tempo. Aqui o Velho Solitário encontra ar puro e a comodidade que não encontra no seu barracão mal cheiroso há poucas centenas de metros deste jardim público, num dos poucos baldios que ainda existem nesta cidade. Numa ocasião, quando uma das suas preces não foi atendida pelas forças do outro lado e vendo Cara Quadrada quase a consumar as suas intenções, o Velho Solitário, arrastando as pernas com esforço, porque as pernas já não eram o que eram, agarrou-o pelo colarinho com a sua grande mão esquerda e aqueceu-lhe as aduelas com a mão direita, também grande, que a natureza lhe deu. Depois dessa coça o desgraçado continua a rondar estas bandas, não aprendeu a lição, a obcessão-compulsão impele a estes comportamentos repetitivos e anormais. Esperemos que nesta noite não seja necessário recorrer à força das fortes mãos do Velho Solitário.
Este cenário era novidade e estranho para o Puto Solitário que começou a ficar perturbado e ameaçado na sua inocência, mas continuava a saborear o resto do chocolate. O silêncio de Cara Quadrada, homem de poucas palavras, começava a perturbá-lo também. Ao redor deste silêncio alguns carros e autocarros queimavam, nas ruas já desafogadas pelo adormecer da cidade, os últimos litros de gasolina. A cidade adormecia acordando para a noite. Embriaguês, prostituição, violência, assaltos à mão armada e desarmada eram presença em esquina sim esquina não nas noites desta cidade, uma das maiores e mais perigosas do mundo. Todos os seres que neste jardim público estavam, sem-abrigos, namorados, Puto Solitário, Cara Quadrada, Velho Solitário e outros poucos transeuntes que se contavam com os dedos das mãos, compunham este cenário desenhado com destinos cruzados, coincidências para uns, mero acaso para outros, pela mão de não se sabe quem e com que intenção, provavelmente para dar uma lição de vida a alguém. Todas as personagens deste quadro sombrio, porque noite já era, matutavam nos seus mundos, muito diferentes uns dos outros. Os seus sonhos individuais, ou ausência deles, as suas necessidades, as suas histórias compunham outros quadros implícitos dentro deste nocturno quadro geral. O cenário agourava alguma coisa de estranha ao Puto Solitário. Estava na idade em que todos são bons ou maus, em que não via diferenças entre as pessoas que considerava boas, estava na idade da inocência. Quando aceitou o chocolate enquadrou Cara Quadrada na lista dos bons, sentiu a oferta como uma manifestação de amizade. Via em Cara Quadrada o pai que oferece doces, a mãe que dá afectos e todos os adultos que aos olhos da sua inocência eram bons e iguais no perfil, psicologicamente falando, Qual é o bom adulto que não oferece um chocolate a uma criança, pensou. O Velho Solitário não pensava assim, a experiência apurou-lhe o dom de ver as coisas boas e más do mundo para além das aparências. Mas perante o cenário em que se encontrava, e pela bondade e pela afectividade excessiva de alguém que não conhecia muito bem, pela aproximação que invadia já a sua distância íntima, o Puto Solitário, como que alertado no seu íntimo por um perigo iminente que não sabia explicar, começou a duvidar das reais intenções de Cara Quadrada. A sua inocência abalara mais uma vez. Atrapalhado, invadiu-lhe o pensamento a dúvida da sua masculinidade, como já lhe acontecera recentemente noutro lugar e noutro tempo, não pela ausência de pelos na cara, no peito, nas pernas, no púbis e em todas aquelas zonas em que os homens têm pelos, pois não tinha idade para isso, mas porque se apercebeu de uma estranha atenção, meiguice e aproximação fora do normal do Cara Quadrada, que era homem. Afinal, os perfis agora não lhe pareciam iguais, mais uma pedra caia do muro da sua inocência, O que verá ele em mim, questionou-se, Velho Solitário sabia a resposta e questionava-se também porque deixam os pais uma criança desta idade entregue a si mesma numa grande cidade doentia e cheia de tubarões como esta. A resposta é simples, o Puto Solitário não se deixa fechar em quatro paredes, foge pela primeira porta ou janela que encontra aberta, o seu lugar é ao ar livre, como um pássaro, a andar nas ruas, a saltar de prédio em prédio, de telhado em telhado como um Spider Man, explorar o desconhecido. Este Puto está talhado para campo aberto, para o espaço livre e sem barreiras, explorar florestas, trilhos e outras coisas normais para esta idade conjugadas ao seu perfil. O Puto Solitário, já angustiado e ansioso, fez um flash back ao seu curto percurso por esta existência, obsevou vários fotogramas da sua vida, do seu dia-a-dia, e via que vestia como rapaz, que brincava como rapaz, seus brinquedos eram de rapaz. Portanto, aos olhos dos especialistas em matéria de comportamentos a conclusão seria não se tratar de síndrome do Rapaz Efeminado, Não sou afeminado, pensou o Puto Solitário, mas duvidou perante a amalgama de sensações do seu sexto sentido, como é normal nesta tenra fase da vida em que as ambiguidades fervilham na incerteza do que se julga certezas.
Discretamente, e sempre com Cara Quadrada no seu encalço, foi arranjando pretextos para sair do jardim público, O velho Solitário mantinha-se discreto e vigilante. Os poucos metros de acesso à rua por onde tinham entrado pareceiam agora kilómetros, levou o seu tempo até sairem dali sem levantar suspeitas que pudessem alterar a calma aparente, até aqui, de Cara Quadrada. Momentos depois, e vendo-os já ao longe sob a ténue iluminação pública da rua sombria e sabendo que as suas pernas não conseguiriam acompanhá-los, tirou mais uma prece da sua bem servida cartola. Minutos depois, a aproximadamente dois quarteirões, perdeu de vista Cara Quadrada que virou à direita, não se sabe para onde, quando se apercebeu de alguém em sentido contrário. O Velho Solitário esforçou a vista e viu um vulto feminino se aproximar do Puto solitário, parecia ser a mãe acompanhada telvez pelo pai que vinha mais atrás como que a fazer a guarda. Pelo raspanete que lhe deu só podia ser a mãe, Agora está seguro, pensou aliviado o Velho. Mais uma vez a sua prece foi atendida e agradeceu aos céus com uma oração que não se ouviu nesta silenciosa rua da cidade.
A dúvida do Puto Solitário quanto à sua masculinidade, essa crise de identidade à medida de puto, remoeu-o, remoeu-o, e levou o seu tempo a se dissipar da sua psique, Durou o que durou, resolveu-se e com ela aprendi, reconheceu o Puto Solitário que já não é puto, Passarão todos, homens e mulheres, por este dilema de identidade, pergunta-se agora olhando para trás, mas não sabe responder. Estes assuntos são normalmente guardados lá no fundo das memórias porque assuntos destes são assuntos de que pouco se falam.
O Seu Anjo Da Guarda e o Velho Solitário obstruiram-lhe naquela altura a porta para uma possível feminilidade da sua personalidade. De vez em quando o puto, que já não é puto, agradece ao seu Anjo da Guarda. Não agradece ao Anjo na terra, o Velho Solitário, porque não o viu.

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