quarta-feira, 16 de junho de 2010

Quase Encontro

Viraram para a Av. Arriaga, sem carros e atapetado de formas definidas por calçada de basalto e calcário. Davam nas vistas da maneira como vinham vestidos nesse Sábado à tarde numa rua cheia de gente interessada em cousas doutas. De calções, t-shirt e sapatilhas, vinham três adolescentes juntos como se a equipa ainda estivesse a jogar. Suados pelo andar acelerado que traziam, amadores da bola, prováveis vedetas, com a bola a saltitar nas mãos de um deles, observavam admirados e os seus olhos perguntaram o que aí se passava na ampla calçada animada nessa tarde pelos feirantes.
Abrandaram o passo para observar melhor, e aperceberam-se do evento. Seguiram em frente: livros e palavras não enchem a barriga a ninguém. O que se quer
depois de um jogo de futebol é um banho para lavar os poros, bebida para matar a sede e comida para encher a barriga. Reiniciaram a marcha, juntos
para se protegerem de algum perigo que não existia. Continuaram determinados, já tinham lugar e hora marcadas para chegar. Passaram ao lado
do Stand de Autores onde intelectuais deleitosamente conversavam e ouviam-se entre si, mas os três jovens seguiam noutra onda, num outro mundo. Os intelectuais, vanguardistas no conhecimento e no entender o mundo e os homens, seguiam noutra. Os três jovens doridos, sedentos e esfomeados aceleraram o passo para mais depressa chegarem ao seu destino. Nessa tarde havia final europeia. Os pensadores deliciavam as dissertações cultas que perfumavam intelectualmente o ambiente ameno e calmo. Visionavam um outro mundo, próspero com as suas normais carências, perfeito com os seus normais defeitos, harmonioso e desenvolvido no campo das ideias. Por momentos um mundo passou ao lado de um outro. Quase se tocavam. Não se viram, apesar do estreito espaço físico que os separava. O quase encontro de mundos diferentes foi fugaz na infinidade do tempo. Os jovens sumiram por entre a multidão. Os doutos ficaram mais uma nadinha, era Sábado, fim-de-semana de descanso merecido.

Publicado nas Cartas do Leitor, do Diário de Notícias da Madeira, em 5 de Junho de 2010

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