quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Piano Adormecido

Noite calma. Comodamente sentado e a saborear um Mambo, fixei o meu olhar num grande, bonito e brilhante piano preto, daqueles pianos a sério que mal cabem num normal quarto de dormir. Tinha três pedais, se é assim que se designam, e não consegui ver o seu teclado nem as engrenagens do seu interior, estava fechado. As teclas deveriam ser tentadoras para os que sabem e para os que não sabem tocar piano. Contemplava-o e parecia sair-me da imaginação uma tosca amostra de “La Valse d’Amélie”. O Piano estava adormecido, faltava-lhe o pulsar de uma alma para o acordar e lhe dar a merecida vida. Imagino o harmonioso e comovente som que dele sairia se dedos sábios, dessa alma que lha faltava, lhe acariciassem as teclas. Mas não, nada saía, estava ali sem nada dizer, adormecido. Continuei a contemplar o bonito piano no silêncio da imensa sala de lazer do hotel, onde estávamos quase sozinhos, enquanto o meu Mambo chagava ao fim. Fomos embora e não ouvi o que queria ouvir. A imensa sala continuou silenciosa. De que serve um bom piano se não tem uma alma para o inquietar?

sábado, 7 de agosto de 2010

Merengue Atrevido

A praia estava cheia, residentes, emigrantes, turistas, grandes e pequenos. Alto equipamento de som animava o fim de tarde entre banhos de sol e mergulhos. João Sacristão de tronco nu e de toalha com emblema do Benfica ao pescoço, de regresso à casa, não resistiu ao som do merengue que saia das grandes colunas. Como já tinha bebido umas cervejitas, coiceou a vergonha, e começou a abanar as magras ancas e a bater os pés no pavimento de betão ao ritmo do merengue. Parecia mais a bailar um bailinho do que um merengue, mas enfim, um homem não pode saber dançar tudo. João Sacristão apesar de se abanar com entusiasmo não deu muito nas vistas porque muita gente havia também a dançar. Com uma certa dificuldade dirigiu a sua atenção para a mensagem verbal do merengue, e como ex-emigrante na América Latina conseguiu interpretar alguns versos, de entre muitos os seguintes: “Se tu me das herculito (…) lo alimentare, seguro que por las noches, de (…) lo llenaré”. Interpretada a verbalidade da composição merengueira, lembrou-se de ter pedido, de manhã, perdão pelos seus pecados enquanto tocava o sino da igreja. O pudor sóbrio que ainda lhe restava e que não fora anestesiada pelas cervejitas que bebeu fez com que os seus pés deixassem de bater no chão, as ancas seguiram o mesmo exemplo, deixaram de abanar, e acelerando o passo benzeu-se. Poucos minutos depois estava em casa a beber mais uma cervejita e a ouvir Joaquim Barreirense, sempre é mais implícito, moderado e sugestivo que o pornográfico merengue que ouvira na praia.