quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tic-toc, tic-toc

Enamorados olham-se ao som do mar. Nos poucos momentos em que desviam o olhar mútuo, apontam para a linha do horizonte e delineiam um caminho comum de sonhos, fantasias, alegrias. O tempo ensinar-lhes-á que a vida é também construída de desilusões, de realidade pura e dura. Assim é a vida e os experientes sabem disso. Os filhos de Deus crescem esculpindo e lapidando a sua humanidade com as coisas boas e com as coisas menos boas que vão acontecendo ao longo da vida.
Soldados lutaram por uma causa nobre. Outros lutaram sem saber bem porquê. Enquanto uns exibem orgulhosos as medalhas que trazem ao peito cheias de bravura, coragem e altruísmo, outros revivem traumas infernais que lhes pertubam o sono e dilaceram a psique. Disparos de fuzis, rebentamentos de bombas e de minas, companheiros a tombar, misérias, sofrimentos. Traumas que teimam em ficar, entristecendo a alma e atormentando as noites e, consequentemente, os dias. Os soldados sem pátria continuam a sua luta, hoje, contra um outro inimigo entrenhado lá dentro e bem fundo nas suas psiques, enquanto o mundo cá fora, para alguns, parece continuar solarengo e alegre. Tic-toc, tic-toc, o tempo passa, o relógio não pára.
Pais fazem das tripas coração. O vai e vem das lides diárias e o stress aceleram o tempo silencioso e matreiro, tic-toc, tic-toc, desgastam-lhes o corpo, degradam-lhes a mente. Ter filhos altera prioridades, rotas e acalmam os sonhos quiméricos da adolescência e dos dias românticos do pré e pós lua-de-mel. Alterações justas ao olhos de Deus e às consciências em processo crescente de humanização. Humanizar-se é também cuidar dos nossos filhos e dar-lhes do melhor. Humanizar-se é também cuidar dos filhos dos outros. A alguns quis o destino conceder-lhes filhos de um deus menor. Perguntam porquê, e Deus não lhes responde. Apesar disso, o Seu silêncio não os demove das suas responsabilidades e tarefas como pais, não desistem. O amor aos filhos fazem deles seres dedicados, inundam-se de amor, jorram-lhes caridade, vestem a missão que Deus não lhes quis revelar. Acredito que esses pais não sintam revolta, sinto-o. E vós, sentis? Tic-toc, tic-toc, o tempo passa, seus filhos crescem e relacionam-se de uma maneira diferente dos filhos dos outros, normais. São diferentes, mas o direito divino de existirem colocam-nos em pé de igualdade com os outros, normais: em questões humanas não há nem deveria haver joio. A lei dos homens, o sistema, o relativo paradigma de normalidade, dão-lhes estatuto de diferentes, e assim são tratados. Por serem diferentes necessitam de uma compensação para essa diferença. Toda mãe e todo pai entendem que em situação de fraqueza a aproximação e a compensação tendem a ser maiores. Essa compensação vem também, sabemos que vem, e tem de vir, do sistema, da sociedade em geral, das leis dos homens e do contributo de cada um de nós. Ajudá-los nessa compensação não é um favor que lhes fazem, é um direito que lhes assiste.
Quando a solidariedade nos chama, as leis dos homens são secundárias. O que nas leis dos homens impele para um direito, nas consciências dos «de bom senso» habita como dever moral, sem medalhas. A luta destes 'soldados', pais e filhos de um deus menor, não é uma luta por medalhas, é uma luta por dignidade. Os tic-toc dos relógios mecânicos deram lugar ao silêncio dos relógios electrónicos. Tic toc, tic-toc, o tempo passa, a evolução tecnológica não pára. O silêncio é bom para a introspecção, não para se deixar adormecer e anestesiar na indiferença pelo outro, tic-toc, tic-toc. O tempo passa, sintam-no. Liguemos novamente os relógios, mecânicos, para ouvirmos novamente o tic-toc, tic-toc, sinal de que o tempo está a passar. Convém não se deixar adormecer e anestesiar, os soldados sem pátria e os outros 'soldados' precisam de nós.
E mesmo sabendo que Deus não lhes fala, acredito que os ouve. No silêncio a consciência engrandece e na acção a solidariedade se manifesta. Aos que por algum motivo defraudaram ou se sentiram defraudados, ainda vão a tempo de restituir ou fazer restituir o que foi privado. Tic-toc, tic-toc, tic-toc, o tempo continua a passar, o relógio não pára.

J B Côrte
Publicado nas "Cartas do Leitor", do "Diário de Notícias da Madeira", em 02 de Dezembro de 2009

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