terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Duro Basalto

Manhoso peludo segurava a cunha, de três centímetros de diâmetro aproximadamente, com as mãos enquanto João Bronco levantava o malho mais uma vez para mais uma pancada certeira, na cunha, e empurrá-la mais uns milímetros pelo basalto adentro. Utilizando a técnica do pêndulo, uma mão segurando o cabo junto ao malho e a outra no fim do cabo ao levantar para depois juntar as mãos na extremidade do cabo ao bater do malho na cabeça da cunha, multiplicava em n vezes a força da pancada. Os cálculos científicos desta técnica ainda não foram feitos. Normalmente a pancada não falha, mas a cada batida dada, malho com a cabeça da cunha, a mão-de-fogo sentia um alívio pelo malho ter batido no lugar certo, principalmente Manhoso Peludo porque coube-lhe nesta broca segurar na cunha e ver o malho bater perto das suas mãos. O alívio era fugaz, como flash de um relâmpago, porque outra batida já vinha a caminho. Por mão-de-fogo entende-se uma equipa de duas pessoas responsáveis pela tarefa de furar pedra, atacar com pólvora e fazer estoirar pedra bruta. Manhoso Peludo alternava a tarefa de segurar a cunha com João Bronco ao longo do longo dia de trabalho, trabalhava-se na altura de sol a sol. Na próxima broca será João Bronco a sentir o remexer das tripas ao ver o malho a subir e a descer junto das suas mãos. O temperamento agressivo e maldoso do Manhoso Peludo, conhecido pelas gentes destas bandas, já o tentou a falhar propositadamente uma pancada para lhe satisfazer a mórbida propensão, que por vezes lhe vinha do fundo da alma, de ver carne viva moída e ensanguentada. Mas isso nunca aconteceu, eram apenas tentações não consumadas. Afinal, eram amigos e companheiros de trabalho. As posições da mão-de-fogo, neste caso Manhoso Peludo e João Bronco, eram constantemente trocadas consoante a disposição das ferramentas perante as pedras a brocar. Na mão-de-fogo convém que um dos elementos seja destro e o outro canhoto de forma a facilitar as posições nas tarefas do ofício. Broca feita, o mesmo que dizer buraco feito, passadas algumas horas desde a primeira malhada do dia, Manhoso Peludo retirou o pó basáltico do buraco com a cucharrilha, instrumento longo de metal, enquanto João Bronco endireitava as costas doloridas pelo vai e vem do pesado malho. Desta vez o estoiro da broca vai ser pequeno, não porque a pedra seja pequena mas porque hoje os olhos controladores do patrão não estão na pedreira, e esta mão-de-fogo combinou desviar alguma pólvora, quando possível, para outros fins que possam vir a ser necessários ou para ganhar alguns trocos extras, por fora, digamos, ganhar algum dinheiro no mercado paralelo da pólvora. Mas dizia, que desta vez o estoiro vai ser pequeno, normalmente a profundidade da broca para uma pedra pequena é de um coito, unidade de medida de comprimento correspondente sensivelmente a dois terços de um palmo. Para os entendidos nas proporções humanas e conhecedores das relações de comprimentos entre as partes do corpo, o coito corresponde ao comprimento desde a ponta do polegar, em posição perpendicular aos restantes dedos da mesma mão, até a lateral oposta da palma da mão. Por se tratar de proporções, o comprimento de um coito, medida, não tem um valor normalizado, ele é relativo a um todo, varia de pessoa para pessoa. Era por isso que Manhoso Peludo, de meia altura, magro e de ossos à vista, determinava o coito de profundidade da broca, já que o seu palmo era mais curto que o palmo do João Bronco, homem alto, forte, bronco. Assim, poupavam pólvora que era desviada para o referido mercado paralelo. Fizemos cinco brocas, dizia Manhoso Peludo ao Patrão, Quem mediu os coitos, perguntava o patrão inquisitoriamente para a contabilidade diária dos gastos, Eu, respondia João Bronco. E assim, uns e outros iam ganhando a vida como podiam, o patrão a apertar com os trabalhadores, os trabalhadores a enganar, quando possível, o patrão. Na altura também não era fácil ganhar a vida.
Broca feita, a mão-de-obra passou à segunda fase da tarefa, atacar a pólvora. À medida que apertavam a pólvora com o repuxo ou atacador, instrumento de madeira, tipo cabo de vassoura, de diâmetro aproximado do diâmetro da broca usada, com uma armela numa das extremidades para receber a pancada do malho ou martelo, o batimento cardíaco da mão-de-fogo acelerava, como acelerava na tarefa de segurar a cunha, e a respiração ofegante retardava a passagem do tempo. Estava bem fresca na memória dos dois a súbita explosão inesperada no apertar da pólvora numa pedreira do Sítio de Cima que resultou na amputação de uma das mãos de um dos elementos da mão-de-fogo. Cada aperto na broca, agora junto com a guita, barbante que irá levar o lume até a pólvora e fazê-la explodir, era um aperto intenso nas entranhas de ambos, menos intenso nas entranhas do João Bronco que observava a uns bons metros a perícia do Manhoso Peludo no atacar do buraco. Estes apertos de entranhas fazem desta profissão, à luz das descobertas científicas actuais, uma profissão de desgaste psicológico rápido, daí uma mão-de-fogo por estas bandas envelhecer mais depressa que uma pessoa de outro ofício qualquer, apesar do vinho seco que faziam questão de trazer todos os dias, escondido no cesto do almoço, para ajudar a mitigar essa constante tensão psicológica. Pólvora atacada juntamente com a guita, João Bronco abeirou-se à ribanceira que abre para todo o vale a oeste para dar, com a sua voz grave de bronco, a voz de fogo, Lá vai fooooooooooogoooo, gritava uma primeira vez, Lá vai foooooooooooogoooo, gritava uma segunda vez passados alguns minutos, Fooooooooooooooooooooogooooooooooooooooooo, fechou a sequência dos três avisos estipulados pelas normas de segurança e entendidos por trabalhadores e moradores da zona. Daqui a pouco toda a equipa da pedreira, pedreiros, carregadores, serventes e a própria mão-de-fogo, recolher-se-ão em local seguro e de preferência longe de eventuais trajectórias das pequenas pedras que se projectarão com a explosão. As pequenas lascas são as mais perigosas por não terem trajectória traçada nem gumes definidos, cortam como navalhas. Feitos os devidos avisos sonoros às pessoas que pelas proximidades andavam nas suas lides agrícolas diárias, Manhoso Peludo pegou lume à guita. Segundos depois, a explosão fez-se ouvir uma vez e uma segunda vez depois de ir e bater na montanha do outro lado do vale. A pedra bruta mais uma vez cedeu e rendeu-se à força da tecnologia avançada, na altura.
O trabalho seguinte, feito pelo pedreiro e servente da pedreira, é o aparar tosco das pedras consoante a função que irão desempenhar na disposição das pedras que constituem uma parede de pedra seca. O aparar mais aprimorado será feito na obra por um pedreiro de primeira antes de chegar às mãos do pedreiro chefe que irá arrumar com mestria as pedras nos seus respectivos lugares, a seco, sem barro nem argamassa. O dia de trabalho foi passando devagar, devagarinho e nem uma nuvem no céu. Passadas algumas horas e já perto do fim do dia de trabalho, enquanto a mão-de-fogo preparava outra broca para explodir no dia seguinte, o Mestre Vermelhinho, assim o chamavam por ser ruivo, sentado numa das pedras já aparada e pronta, ia dando as últimas malhadas numa outra pedra que se iria juntar também às muitas pedras já amontoadas na obra.
Os carregadores, aos quais coube a tarefa cangueira, mas não menos importante, do processo de construção, de transportar as pedras da pedreira até obra, são homens rijos de ossos, rijos de músculos e rijos de pulmão. São preferencialmente de baixa estatura, e por isso convém realçar aqui que os homens rijos não se medem aos palmos, e essa baixa estatura ajuda muito a montar as pedras incómodas e pesadas na molhelha feita de saca de serapilheira. Esta canga espreme músculos e ossos ao limite, e sufoca pulmões, o que leva a que de vez em quando se sangre as maiores pedras. Neste dia de trabalho de Maio, algumas das maiores pedras foram sangradas, ou por falta de um descansadeiro perto no momento de aflição, ou porque as pernas não aguentaram um degrau mais alto do caminho, ou porque o pé de apoio escorregou, ou simplesmente pelo ajoujar do ânimo das pernas em fim de dia de trabalho. Alguns sangramentos, de pedras consideravelmente grandes, porque as pequenas não se sangram, são feitos de propósito para queimar alguns minutos de trabalho daquele que levava a pedra e de todos os outros que teriam de ajudar a montá-la novamente na molhelha. Uma pedra sangrada é uma pedra que cai ao chão pelos motivos já descritos e outros que porventura se venham a descobrir. Portanto, não é a pedra que sangra é o corpo que desfalece perante o peso de uma pedra e o carregador transfere psicologicamente para a pedra a fraqueza que o seu ego não consente. A culpa é da maldita pedra, sangro-a, tiro-lhe a última gota de sangue, e assim expia uma fraqueza que não quer admitir. Dos carregadores deste sítio há um que nunca sangrou uma pedra. Chamam-lhe Rijinho, um verdadeiro cangueiro, de estatura baixa, musculado, robusto, rijo como o basalto. É o Rijinho que leva as maiores e mais incómodas, nunca ajoujou, consegue levar sempre a pedra montada na sua molhelha até ao próximo descansadeiro.
Voltando à pedreira, o malho na mão direita do Mestre Vermelhinho já custava a subir para dar mais uma malhada, enquanto a mão esquerda já com cãibra segurava tremulamente a pedra quase pronta. Com todos os poros salgados da transpiração, o Mestre Vermelhinho, levantou os olhos e com satisfação viu que o sol estava quase a esconder-se por detrás da montanha a oeste, sinal de que o duro dia de trabalho estava a chegar ao fim. No céu nenhuma nuvem passou durante todo o dia. Os carregadores, quase a virar a encosta do lado da obra, há um quarto de hora aproximadamente, levaram o último caminho de pedras. Uma cruzeta, dois ensalços e um grande cunhal de alicerce, levado p’lo Rijinho, para a obra, futura casa do Filho do Bezugo, dono da única mercearia do sítio, em vésperas de casar com Maria Morena do sítio vizinho, filha de uma outra maria, Maria Vendeira, também merceeira. A construção está sob a responsabilidade do Mestre Cambado. O Mestre Cambado ficará contente com o cunhal de alicerce levado pelo Rijinho, renderá parede a assentará como uma luva numa das esquinas da futura casa. A obra dista da pedreira quilómetro e meio, mais metro menos metro.
Novamente a olhar a posição do sol, o Mestre Vermelhinho passou a costa da mão na testa. Desta vez a mescla de poeira e transpiração ressequiu na testa rugosa pela fresca brisa que passava neste fim de tarde de Maio, o sol já se vai pondo. À sua esquerda a mão-de fogo, Manhoso Peludo e João Bronco, arrumava já as ferramentas. Para eles o dia também fora longo e cansativo, mas satisfeitos porque hoje tudo correu bem, as perigosas malhadas na cunha não fizeram sangue e a matreira pólvora não fez das suas partidas. Curiosamente, nos últimos tempos têm usado pólvora de guerra e não a pólvora de marca Soares, conclui-se aqui também que a qualidade da pólvora determina os resultados. O Rapaz de Cabelo Encaracolado, servente do Mestre Vermelhinho, há já meia hora acabara o longo dia de trabalho, os rapazes não têm a resistência física e psicológica de um adulto para este tipo de trabalho. A respirar fundo e calmamente, estava à esquerda, e à sombra da escarpa de pedra concavada pela última semana de extracção, a observar as últimas malhadas do Mestre Vermelhinho como que a querer aprender a arte no primeiro aparo da bruta pedra. O posicionamento do Rapaz De Cabelo Encaracolado à esquerda do Mestre Vermelhinho violava as regras de segurança, um servente de pedreiro a malhar pedra ou está a frente ou está atrás, não pode estar à sua esquerda nem à sua direita, pois são nesses dois sentidos que as lascas de pedra definem as suas trajectórias após a força do malho ou marrão bater na pedra bruta. As boas maneiras de segurança, aprendidas com a experiência do passar dos anos, dizem que o servente deve colocar-se atrás ou à frente do mestre enquanto este malha. O Mestre Vermelhinho como chefe da equipa não o ralhou por ler nos seus olhos, estes estados de espírito também se lêem com os olhos, a avidez de aprender os posicionamentos, os movimentos, os cálculos empíricos, as trajectórias das ferramentas comandadas pela sabedoria acumulada em muitos anos de trabalho, muitos anos de observação e prática, que fazem deste ofício uma arte para almas pacientes.
Por estarem em finais de Maio, os dias de trabalho eram longos. O mestre Vermelhinho aparelhara nesse dia alguns cunhais e muitos ensalços para a casa do Filho Do Bezugo. O que ainda mantém a aptidão deste homem de idade já um pouco avançada, perto da reforma, é a longa experiência neste ofício que faz com que os seus movimentos com o malho e marrão firmes na mão sejam já quase automatizados. Esta automatização de movimentos liberta-o assim para outros pensamentos, outras divagações das coisas da vida, e ameniza-lhe também a exigência deste ofício que no início, há muitos anos, era-lhe mais exigente física e mentalmente. Este ofício, em que os dedos se movem entre pesadas ferramentas e o duro e frio basalto, provocando de quando em quando algumas feridas e fracturas quando a pancada não acerta, era apetecido apenas pelos escudos a mais que se recebia por um dia de trabalho. Por essa altura um mestre de pedreira ganhava cinquenta escudos aproximadamente por um dia de trabalho, vinte e cinco cêntimos do euro actual. Um pedreiro de primeira ganhava mais dez ou vinte escudos por dia consoante a sua perícia e olho para o ofício. Os serventes e os cangueiros ganhavam entre vinte e cinco e vinte e sete escudos por dia.
Findo o dia, feitas as contas de mercearia, sem os rigores que alguns exigiriam, o Mestre Vermelhinho ganhou em dinheiro de hoje, utilizando a fórmula de multiplicar os anos que passaram por uma média de inflação pouco rigorosa de 3%, sessenta e dois cêntimos e meio, o Rapaz de Cabelos encaracolados, trinta e um cêntimos e um quarto, e a mão-de-fogo mais alguns cêntimos que os cangueiros. Pouco dinheiro, como pouco dinheiro é também o que actualmente recebem de reforma.
Sol posto, abandonaram todos a pedreira indo ao encontro do aconchego reconfortante do lar. Amanha é um outro dia igual a este, diferente apenas porque será Sábado, véspera de dia de descanso, e será destinado essencialmente para aparar pedra de calçada para o terreiro da casa e parte da vereda, arredores e acessos.
Ainda hoje o Mestre Vermelhinho vai passar pela Cova do Bico para levar um molho de erva para a vaca apanhada pela mulher durante a tarde, depois do jantar, entenda-se lanche ao meio da tarde, porque por estas bandas o jantar propriamente dito chamam-lhe ceia. Por sua vez, a mão-de-fogo ao olhar para a ladeira a pique, ladeada de tabaibeiras que entronca com a vereda de acesso às suas casas, e prevendo os picos de tabaibeiras a pairar no ar que lhes iriam entrar pelas calças acima e pelas mangas da camisa adentro com a ajuda da leve brisa vespertina, lembrou-lhes noites mal passadas de pouco dormir com os picos a incomodar nas zonas baixas do corpo e nas zonas de difícil acesso para a coça, decidiram seguir por uma vereda alternativa e passar pela venda do Bezugo para aliviar as tensões com mais um par de quartos de litro de vinho seco, e se encontrarem parceiros, ainda jogam uma bisca. Os habitantes deste Sítio das Bêberas Pretas só recorrem à única mercearia da zona, mercearia do Bezugo, para comprar bens essenciais, tomar uns canecos e jogar à bisca. Enquanto os homens trabalham fora, normalmente na construção civil à pedra seca, o agregado familiar vai fazendo as lides agrícolas e pecuárias necessárias para a subsistência.
Toda a zona da pedreira emudeceu e a penumbra tomou conta do lugar. O silêncio foi compassado com o chilrear de alguns pássaros. Mais tarde, os grilos iniciavam mais cedo o seu cantar, o dia fora longo e quente.
Agora, em frente de um monte de basalto trabalhado naquela altura, que veio aqui parar de não sei de onde, sinto o suor, a compressão de ossos e músculos dos alvenéis de outrora no trabalhar de cada pedra. Desta vez não irão as pedras abastecer paredes a seco de uma casa particular qualquer como naquele tempo. Abastecerão algumas obras do momento, serão atupidas em betão, ou alcatrão, para fazer volume, ou amontoadas com argamassa sem o dispor com mestria dos outros tempos. Perante este maltratar das pedras talhadas a malho e marrão, os outroras alvenéis, que ainda estão vivos, sentem desrespeito pelo seu trabalho e pelo ofício que no passado era o seu ganha-pão e que agora serve de motivo de orgulho como marca das suas passagens por estes lados. Os mesmos alvenéis ou pedreiros sentem mágoa ao ver o negócio que se faz com as pedras trabalhadas naqueles tempos que tanto suor custou e tantas mãos desgastaram e cansaram. Os mestres alvenéis ainda vivos detentores desse conhecimento do trabalhar o duro basalto estão desaparecendo, e com eles uma parte da cultura tradicional madeirense. O tempo não perdoa.
(fonte: Francisco Gonçalves da Côrte)

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