domingo, 10 de abril de 2011

À Procura do Norte

Zé Perneta, sentado na sua já velha e ensebada almofada que o protegia do frio da calçada, olhou, com a palma da mão estendida, para os transeuntes que por ele passavam indiferentes. Descansou por momentos a mão e viu ao longe um homem com andar calmo, diferente do andar dos outros, que vinha na sua direcção. Apesar do seu olhar absorto e embalado pela calma do andar, Zé Perneta pressentiu que seria este a dar-lhe a primeira moeda do dia. Ao vê-lo aproximar-se, estendeu-lhe a palma da mão para que lhe desse a moeda desejada. O homem parou, olhou para Zé Perneta sem nada dizer. O homem observava-o e Zé Perneta continuava com a mão pedinte, Por favor uma moedinha, Porquê pedes esmola, homem, Porque não tenho trabalho e tenho fome, Há sempre trabalho para quem quer trabalhar, Não é bem assim, nem todos dão trabalho a um perneta, Não teres uma perna não faz de ti um inútil, E que posso eu fazer, Deus castigou-me à nascença, Deus, perguntou o homem, Sim, Deus, que culpa tenho eu de nascer assim e ninguém me querer, Será Deus o responsável pelas tuas faltas, Faltas, quê faltas, perguntou Zé Perneta, Não sei, não podes é responsabilizar Deus pelas tuas faltas, Quê faltas, insistiu Zé Perneta, Não sei, desconheço essas faltas, mas não foi Deus que te castigou, tu mesmo te castigaste, Não o entendo, Sr., Falhaste antes de seres o que és, Continuo a não o entender, Sr., Algum mal fizeste algures, outrora, e agora tens de provar que és capaz de te redimir dessas faltas, Se algum mal fiz devo já ter sido castigado por isso, Talvez sim, talvez não, e se o foste, foste castigado pela mão do homem, sabes, não basta apenas cumprir as leis, O Sr. é padre, Não, não sou padre, É bruxo, Não, não sou bruxo, sou João Dumas, um homem simples como tu, que está aqui para viver tal como tu aqui estás, Não o entendo, Sr. João Dumas, Eu sei que não me entendes, nem eu por vezes me entendo, não é fácil entender estas coisas, E como sabe essas coisas que acabou dizer sobre as minhas faltas, Não sei como as sei, só as disse. Zé Perneta não gostando da conversa, mudou o assunto para o que lhe interessava, Vai me dar uma moedinha ou não, não consigo pensar nessas coisas, tenho a barriga vazia, Já te dei uma das melhores esmolas que podes receber, levanta-te e inicia o teu caminho se ainda não o iniciaste, redime-te, liberta-te da roda, sê feliz e ajuda tu os outros, tu não precisas de esmola, Continuo a não o entender. João Dumas nada mais pronunciou, virou-se e seguiu o seu caminho. Zé Perneta seguiu-o com o olhar até se perder por entre a multidão ao longo do passeio.
Zé perneta olhou em frente e viu um alto e sujo prédio de betão com janelas fumadas. Olhou para a direita e viu muitos prédios como o anterior. Depois olhou para a esquerda, e por entre dois prédios ao longe, viu uma montanha verde e um céu azul. Com esforço levantou-se, recolheu a sebenta almofada. Sem saber porquê e como que empurrado por alguém, iniciou a marcha com a ajuda do seu torcido bordão. Zé Perneta foi à procura do norte.

Sem comentários: