Por não chover, a noite está mais fria do que o habitual. Com as mãos ocupadas com um tabuleiro cheio de medicamentos e afins, a enfermeira ao abrir, com as costas, a porta flexível vaivém, que dá acesso ao longo corredor que deveria separar a enfermaria dos homens da enfermaria das mulheres, não conseguiu evitar o ranger das dobradiças, já um pouco ferrugentas, que sobressaltou os de sono leve que pareciam dormir. O longo corredor já não separa as enfermarias, é ele próprio uma enfermaria mista em que já não se distingue na penumbra as almas em corpo de homem e as almas em corpo de mulher. Todas elas deitadas a fazer o que se habituaram a fazer de noite ao longo de toda uma vida: dormir. Não que precisem, ou talvez precisem, mas dormindo fazem passar o tempo que aqui neste longo corredor teima em passar devagar, devagarinho. Dormem também para esquecer que o tempo existe e que atrapalha. A física também tem destas coisas, por vezes atrapalha. Aqui, para além de dormir à noite, dorme-se também de dia. Dormindo, sempre vão recuperando recordações, que acordados não recuperariam. Dormindo esquecem o martírio de estar sempre deitados sem nada fazer, dormindo esquecem a impaciente frustração de não se poderem mexer.
O aproveitamento de cada milímetro do longo corredor, para a arrumação das camas, acaba por lhes dar o aconchego que mereciam noutro lugar, com outras pessoas, e que perderam por razões que eles próprios não conseguem compreender. A trémula iluminação das velhas e cansadas lâmpadas do tecto não faz lembrar aos mais distraídos que é hoje véspera de Natal. Há uma árvore de natal iluminada e silenciosa no compartimento ao lado, que não coube aqui neste corredor, e que vai reflectindo o seu piscar contínuo em algumas zonas, mas nem todos contemplam este reflexo que passa fraterno pela porta do compartimento ao lado. À medida que a enfermeira avançava em passos longos e silenciosos deixava para trás histórias de vida guardadas nas memórias de cada um dos acamados. Cada qual, no seu lugar escolhido ao acaso, ouve, mesmo ao lado, muito pertinho, os gemidos da alma vizinha adormecida, as inspirações e expirações do corpo ao lado desfalecido e agastado pelo tempo, as lamentações do sonhar em voz alta, os queixumes que não adormecem. Outras histórias, as verdadeiras, são contadas e repetidas vezes sem conta ao longo do dia, e todos os dias aqui, quando não dormem, o tempo tarda em passar. Durante o dia ouvem e falam, os que conseguem falar. Agora, alguns dormem, outros tentam, outros partilham a insónia com ninguém. A enfermeira abrandou o passo e aproximou-se de Manuel ao vê-lo acordado e silencioso com o olhar fixo na janela ao fundo do corredor. Reconheceu-o na penumbra pela brancura do seu cabelo e não pelo seu lugar marcado ao acaso. Aproximou-se ainda mais para lhe dar algum conforto que as suas mãos ocupadas com o tabuleiro não podiam dar, e perguntou-lhe, Está tudo bem consigo Sr. Manuel, Parece mentira senhora enfermeira, mas sinto-me bem, Sim, perguntou para confirmar, porque achou estranho, o Sr. Manuel é um dos poucos deste corredor com sono pesado, Deve ser do espírito natalício, respondeu Manuel, e riram os dois, ela contidamente para não perturbar os outros, ele com esforço para fazer ouvir o seu riso, Não está com sono, Não, Vou lhe trazer um comprimido para o ajudar a dormir, Não, não preciso, sinto-me bem, Mas tem de tomar, o sono é alimento Sr. Manuel, Não preciso Sr.ª enfermeira, Vou só pôr este tabuleiro na sala de trabalho e já lhe trago um Stilnox para que possa dormir bem, Não é preciso senhora enfermeira, estou me sentindo bem, Tem de ser, são os procedimentos, Sr. Manuel, Não se mace, estou me sentindo muito bem, insistiu Manuel, mas estas últimas palavras que lhe saíram pela boca ficaram a flutuar no ar e ouviu-as a enfermeira já um pouco longe em passo acelerado a entrar na enfermaria feminina para acudir ao chamamento queixoso de uma voz trémula que, com muito esforço, conseguiu fazer-se ouvir. Poucos minutos depois voltou a enfermeira, com um copo de água numa mão e com um Stilnox na outra, aproximou-se mais uma vez para lhe dar algum conforto, que as suas mãos ocupadas não podiam dar e disse-lhe com um tom de voz suave, Está aqui o seu comprimido, mas Manuel não lhe respondeu, nem reagiu. Sem cambalear e desta vez sem dores e sem o atrapalho da física, Manuel avançava sem pressa, o seu deslizar era agora leve e silencioso como uma nuvem perdida no céu e empurrada pelo vento. Avançava ao longo do longo corredor a caminho da janela que há pouco fixava com o olhar. Enquanto lá atrás a enfermeira insistia em dar-lhe a medicação, o Manuel pela janela fechada saía, livre como um passarinho, como há muito esperava. Enquanto a enfermeira tentava acordá-lo depois de ter pousado o copo e o Stilnox na mesa-de-cabeceira, o Manuel levemente se elevava pelo vazio da noite fria. Quando a enfermeira se apercebeu que Manuel não reagia, este já lá no alto deliciava-se com a cintilante iluminação natalícia do anfiteatro citadino.
Habituado na sua modesta casinha a contemplar a sua lapinha de pêros e laranjas, com o Menino Jesus no alto de braços abertos, Manuel, lá do alto, surpreendeu-se, como uma criança que vê pela primeira vez o Pai Natal, e deliciou-se ao ver com os seus outros olhos a sua linda cidade iluminada, como não via há muito desde que a doença e a idade o imobilizaram numa cama.
Feliz Natal!
Publicado nas "Cartas do Leitor" do "Diário de Notícias da madeira" em 26 de Dezembro de 2010