segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O QUE ALTERARIAS NESTE LUGAR?

O que alterarias neste lugar para gostares dele, perguntou Libardo, Não vale a pena insistires Libardo, não gosto deste lugar e pronto, Vives cá já faz algum tempo e não encontras agrado em aqui viver, porquê, Não insistas, já te disse que não gosto de viver neste lugar, parto na primeira oportunidade que surgir. O apreço que Libardo sempre sentiu por Tertúlia, amoleceu-lhe o coração e humedeceu-lhe os olhos quando ouviu da sua boca o verbo partir, sabia que nada seguraria Tertúlia nesse voo para outro lugar. Na esperança de ouvir o que queria ouvir sabendo à partida que nada do que queria ouvir ouviria da sua boca, insistiu, Faz de conta que és uma fada madrinha com uma varinha mágica que pode satisfazer todos os seus desejos, o que alterarias neste lugar para ser do teu agrado, Não mudaria nada, Nada, perguntou Libardo para confirmar a secura da resposta, Nada, e insistindo novamente, Nem sequer uma pedrinha, Nem sequer uma pedrinha, não mudaria nada, respondeu Tertúlia olhando já para outro lugar como sinal de querer mudar de assunto, Nem sequer um grão, Irrita-me a tua insistência, reagiu Tertúlia à insistência incómoda de Libardo e deu por terminada a conversa. Levantou-se e afastou-se enquanto Libardo, pensando rapidamente, media o espaço percorrido por Tertúlia calculando o tempo que ainda tinha para se fazer ouvir, e no limite disse-lhe, Assim sendo, deverias ter ficado enclausurada dentro das quatro paredes do teu quarto em todos estes anos, Tertúlia parou, não percebeu muito bem o que acabara de ouvir, e mantendo-se de costas para Libardo esperou por mais alguma coisa para poder entender, e Libardo sabendo que ela esperava logo falou, Podes não ter mudado do seu lugar nenhuma pedrinha nem nenhum grão, mas de cada vez que saías do teu quarto mudaste, em todos estes anos, aqueles a quem olhaste, falaste, sorriste, ralhaste, odiaste, amaste, abraçaste, aconselhaste, portanto, pensas que não mas a tua simples presença em cada canto deste lugar muito mudou. Tertúlia respondeu com o seu silêncio e imobilidade, Libardo entendeu a resposta. Tertúlia reflectiu cabisbaixamente, depois levantou lentamente o olhar, varreu visualmente tudo à sua volta, inspirou fundo para sentir dentro de si o que tinha de sentir e começou a ver o seu lugar neste lugar com os outros olhos. Quando Tertúlia se virou para doutra forma responder ao que ouvira viu seu irmão longe onde a sua voz já não o alcançava. Nesse dia não se falaram mais e Tertúlia sentiu que mais uma vez tinha mudado alguma coisa.

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