quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
De cerveja numa mão e sem nada na outra.
E a música tocava a um ritmo que o convidava a mexer. Abanava a cabeça, levantava as mãos. Por ser homem surpreendia todos com o seu movimento de ancas e pelas trocas de pernas que conseguia fazer. Dançava a solo ao som dos Djs que pelos equipamentos iam passando. Dançava a solo porque nenhuma rapariga se atreveu a fazer-lhe par, não porque não fosse um rapaz apreciado e desejado, mas porque os seus movimentos eram extravagantes de mais para as donzelas que com ele desejavam dançar. O seu solo louco continuou até que o dj em serviço abrandou o ritmo. Todas olharam para ele, ou quase todas, esperando que fossem convidadas para o slow, mas o Tremelicão, como era conhecido por tremer muito quando dançava, abrandou o ritmo louco e saiu da pista de dança com a camisa branca molhada de suor e dirigiu-se para o balcão do bar. As pretendentes para o slow não procuraram se agarrar a nenhum rapaz, esperaram. O Tremelicão pediu ao barman um leite chocolatado e todos os machos encostados ao balcão do bar riram-se, menos ele, e elas. Num abrir e fechar de olhos acabou por absorver como uma esponja seca uma garrafa de água porque leite chocolatado não havia em festas daquele género. Acabada a água virou-se para a pista de dança, olhou, procurou, detectou e avançou confiante e decidido para a rapariga mais bonita do baile. Nem foi preciso pedir, os braços estavam já abertos há muito tempo. Os machos ficaram a olhar uns para os outros de cerveja numa mão e sem nada na outra.
Estás a fazer greve?!
Estás a fazer greve, Eu não, e tu, Eu sim. Posso saber porque não estás a fazer greve, Podes, porque não vale a pena, e tu, porque estás a fazer greve, Estou a fazer greve porque é a única arma que me resta. E nada mais disseram, cada um ficou a pensar no que o outro disse.
À espera que um comboio me leve.
O oceano atlântico que nos separa dos continentes deixou de ser a razão da nossa insularidade. Se estávamos isolados, agora estamo-lo ainda mais. Os privilégios da ultraperiferia são uma treta. A nossa via rápida é uma linha curva aberta quase fechada que nos leva sempre para o mesmo lugar, como um burro à volta da nora. O aeroporto serve mais para trazer o que não é nosso do que para levar lá para fora o que realmente somos. E de cócoras no calhau, de cigarro na boca a ver a fumaça a desaparecer na linha do horizonte, fico à espera de uma linha de comboio que me leve para outro lugar, para um lugar parecido com aquele que pensava estar desde que aqui cheguei.
Quem sou?
As minhas personagens nascem de uma necessidade motivada por qualquer coisa que não consigo explicar. Todas elas são eu, mas não sou nenhuma delas.
Emigrante
Malas às costas. Raízes sem terra. Hoje aqui, amanhã não sei onde. O sol nasce todos os dias diferente. A incerteza é minha companheira. Meu vizinho não tem nome. Com muita sorte volto, com muito azar fico. Nasceu, nasceram, agora com sorte ficamos, com muito azar voltamos. A saudade aperta-me o coração, quero voltar, meu filho não, meu neto muito menos. Trocava o meu primeiro bilhete de partida por um atestado de residência de miséria ou por um passaporte para a guerra? Não sei, a saudade aperta-me o coração. Quem já vestiu a pele de um emigrante?
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