sexta-feira, 29 de março de 2013
Desconfiado
O desconfiado doentio não acredita. Anda no mundo como um cão abandonado, com o rabo entre as pernas, em constante e instável fuga, com os olhos arregalados com medo de levar um pontapé deste, ou uma pedrada daquele, ou um empurrão daquele deste. O desconfiado doentio pode dar em ateu ou em religioso fanático, ou nem uma nem outra, posso estar enganado. Desconfia tão insistentemente que fecha a mente para aceitar outras e novas possibilidades. Não se dá com medo de ser enganado. Não recebe com medo de ser envenenado. Por ser desconfiado antecipa-se, procura enganar antes de ser enganado. A sua antecipação é a sua defesa perante o que acha ser uma ameaça. O desconfiado por ser desconfiado e não acreditar, não tem sossego, anda inquieto pelo mundo, como o tal cão. Anda permanentemente stressado, infeliz. Só está bem na escuridão onde sabe que não pode ser isto, ou quando está escondido num buraco bem fundo e coberto com mil palmos de terra. Parece que o desconfiado doentio não nasceu para viver, mas sim para sobreviver num paraíso que ele julga ser uma selva cheia predadores e serpentes, um inferno. Começo a me questionar se não serei um desconfiado.
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