Tirou
os sapatos e aproximou os pés da lareira, frios desde manhã. Ao olhar
para o lume que consumia dois pedaços de acácia, uma deles quase todo em
brasa, deixou-se levar. Com o pensamento algures levado pela saudade e
com o olhar fixo na lenha que se consumia, ouviu, ao calor da lareira, a
voz que outrora lhe soara sempre a "cana rachada". Ficou a ouvi-la e
deixou-se enlevar. Nesse enlevo o tempo
parou, o outro, porque aquele que conhecemos continuou a queimar e a
queimar os dois paus de acácia até um deles estalar. O estalo trouxe-o
novamente para o tempo, o conhecido, e apercebeu-se que as brasas
estavam morrentes, já era tarde. A lareira arrefeceu, a tristeza começou
a descer pela chaminé, seus pés começaram a esfriar e o seu enlevo
esvaiu-se. E enquanto o lamento de não ter valorizado aquela voz no
passado lhe rachava a alma, emocionado e num clamor mudo, invocou por
ela: aquela que outrora achara ter uma voz de "cana rachada".
FELIZ NATAL