terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cana Rachada

Tirou os sapatos e aproximou os pés da lareira, frios desde manhã. Ao olhar para o lume que consumia dois pedaços de acácia, uma deles quase todo em brasa, deixou-se levar. Com o pensamento algures levado pela saudade e com o olhar fixo na lenha que se consumia, ouviu, ao calor da lareira, a voz que outrora lhe soara sempre a "cana rachada". Ficou a ouvi-la e deixou-se enlevar. Nesse enlevo o tempo parou, o outro, porque aquele que conhecemos continuou a queimar e a queimar os dois paus de acácia até um deles estalar. O estalo trouxe-o novamente para o tempo, o conhecido, e apercebeu-se que as brasas estavam morrentes, já era tarde. A lareira arrefeceu, a tristeza começou a descer pela chaminé, seus pés começaram a esfriar e o seu enlevo esvaiu-se. E enquanto o lamento de não ter valorizado aquela voz no passado lhe rachava a alma, emocionado e num clamor mudo, invocou por ela: aquela que outrora achara ter uma voz de "cana rachada".

FELIZ NATAL

1 comentário:

Anónimo disse...

Bom texto. Gosto particularmente do "outro" tempo, esse é o que sustenta verdadeiramente a minha vida ...