Talvez volte
Espreitou mais uma vez pela abertura da caixa de correio do portão ferrugento da entrada da garagem. Garagem que era a sala de estar sem sofá e sala de jantar sem um mesa à medida para seis. A noite já caíra, agora a zona, à volta do mercado toda iluminada e cheia de gente apressada prendeu a atenção do Fahir. Pegou no bloco de notas, e à luz pisca-pisca vermelho e verde da gambiarra da garagem apontou mais um nome: o funcionário Joaquim lá da escola. Enquanto espreitava pela abertura da caixa de correio do portão ferrugento, lá fora cheirava a carne vinha-d’alhos de tascas muitas, a pipocas, churros, cachorros quentes das muitas roulotes, até conseguia cheirar o plástico e o papel de embrulho dos sacos a baloiçar aos ombros e às mãos de apressada gente. Fahir tinha já apontado umas dezenas de nomes de pessoas conhecidas que pela zona passaram nestes últimos dias, caras conhecidas.
Uma brincadeira que o Fahir arranjou para passar o tempo nestes dias um pouco monótonos depois das aulas terem acabado. O rapaz tinha jeito para este levantamento de dados e gostava de os fazer para depois os utilizar em qualquer coisa: um gráfico, um estudo estatístico, um desenho, ou um texto. Daria para qualquer coisa e sempre ficava preparado para um trabalho qualquer que algum professor lhe pedisse no primeiro dia de aulas do segundo período. São coisas que aprendeu na escola, cá e lá, não lhe enche a barriga mas alimenta-lhe a fantasia e criatividade, brincadeira de crianças. Os seus nove anos preconizam já um futuro cientista, investigador, artista. Curioso foi ele ter percebido que todas as pessoas da sua lista passaram já pela zona, nestes quatro dias que antecedem o Natal, três vezes, outras quatro, duas delas sete vezes. De todas as vezes apontou onde entraram, com quem entraram, com quem saíram, com que saíram, para onde foram, uma verdadeira “máquina” de observação, chegando a prever o onde, o quando e o como.
Um deles, sempre que por aí passou deu esmola ao mesmo sem abrigo acomodado junto à entrada principal do mercado a encher a barriga com a amálgama de cheiros. Encostou a testa ao ferro frio do portão, sempre com os olhos fixos para a rua, desta vez para tentar ver se os pais já se aproximavam, porque a barriga estava a dar horas. Por instantes passou pelas brasas, mas logo que tomou consciência alguém lhe chamou a atenção. Pela primeira vez nestes últimos quatro dias, aparece Furro, de andar baloiçante, de óculos de sol sobre a testa, capucho à cabeça, mochila às costas, de sapatilhas por amarrar, com o olhar perdido algures. De auscultadores aos ouvidos, dizem que gosta de rock da pesada, parecia decidido para onde ia, nada do ambiente natalício que o rodeava lhe parecia impressionar. Furro era problemático, sempre teve chatices na escola, um rapaz estranho, chumbou uma carrada de vezes. Onde quer que fosse, recebia sempre uma palavra ou um gesto de desprezo, cada palavra, cada gesto, um insulto, uma humilhação, parecia ter nascido para levar com a energia negativa dos outros.
Habituou-se a que nada o intimidasse, ergueu à sua volta um blindagem aos outros que faz dele um dos mais frios das redondezas. Na mesma medida que o desprezaram e humilharam ele agora humilha e despreza os outros. Como muitos, andava por aí a queimar tempo, comer, dormir. Ultimamente tem andado desligado da zona do mercado. Dizem que vai emigrar para o Norte, outros dizem que o Norte é apenas uma ponte para os lados do Este, enfim, é o que dizem. Fahir, sempre a segui-lo de vista, viu Furro entrar no autocarro com destino ao aeroporto. Parece que é desta que vai para o Norte, ou para Este. Fahir, cansado e com fome acabou por adormecer mesmo no chão encostado ao portão ferrugento da entrada da garagem. A partir desse dia ninguém mais viu o Furro. Talvez volte um dia destes, talvez volte. Feliz Natal!
Publicado em: Diário de Notícias da Madeira,Terça, 22 de Dezembro de 2015
Uma brincadeira que o Fahir arranjou para passar o tempo nestes dias um pouco monótonos depois das aulas terem acabado. O rapaz tinha jeito para este levantamento de dados e gostava de os fazer para depois os utilizar em qualquer coisa: um gráfico, um estudo estatístico, um desenho, ou um texto. Daria para qualquer coisa e sempre ficava preparado para um trabalho qualquer que algum professor lhe pedisse no primeiro dia de aulas do segundo período. São coisas que aprendeu na escola, cá e lá, não lhe enche a barriga mas alimenta-lhe a fantasia e criatividade, brincadeira de crianças. Os seus nove anos preconizam já um futuro cientista, investigador, artista. Curioso foi ele ter percebido que todas as pessoas da sua lista passaram já pela zona, nestes quatro dias que antecedem o Natal, três vezes, outras quatro, duas delas sete vezes. De todas as vezes apontou onde entraram, com quem entraram, com quem saíram, com que saíram, para onde foram, uma verdadeira “máquina” de observação, chegando a prever o onde, o quando e o como.
Um deles, sempre que por aí passou deu esmola ao mesmo sem abrigo acomodado junto à entrada principal do mercado a encher a barriga com a amálgama de cheiros. Encostou a testa ao ferro frio do portão, sempre com os olhos fixos para a rua, desta vez para tentar ver se os pais já se aproximavam, porque a barriga estava a dar horas. Por instantes passou pelas brasas, mas logo que tomou consciência alguém lhe chamou a atenção. Pela primeira vez nestes últimos quatro dias, aparece Furro, de andar baloiçante, de óculos de sol sobre a testa, capucho à cabeça, mochila às costas, de sapatilhas por amarrar, com o olhar perdido algures. De auscultadores aos ouvidos, dizem que gosta de rock da pesada, parecia decidido para onde ia, nada do ambiente natalício que o rodeava lhe parecia impressionar. Furro era problemático, sempre teve chatices na escola, um rapaz estranho, chumbou uma carrada de vezes. Onde quer que fosse, recebia sempre uma palavra ou um gesto de desprezo, cada palavra, cada gesto, um insulto, uma humilhação, parecia ter nascido para levar com a energia negativa dos outros.
Habituou-se a que nada o intimidasse, ergueu à sua volta um blindagem aos outros que faz dele um dos mais frios das redondezas. Na mesma medida que o desprezaram e humilharam ele agora humilha e despreza os outros. Como muitos, andava por aí a queimar tempo, comer, dormir. Ultimamente tem andado desligado da zona do mercado. Dizem que vai emigrar para o Norte, outros dizem que o Norte é apenas uma ponte para os lados do Este, enfim, é o que dizem. Fahir, sempre a segui-lo de vista, viu Furro entrar no autocarro com destino ao aeroporto. Parece que é desta que vai para o Norte, ou para Este. Fahir, cansado e com fome acabou por adormecer mesmo no chão encostado ao portão ferrugento da entrada da garagem. A partir desse dia ninguém mais viu o Furro. Talvez volte um dia destes, talvez volte. Feliz Natal!
Publicado em: Diário de Notícias da Madeira,Terça, 22 de Dezembro de 2015
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