Chovia
e tremia de frio. Entrou na loja humedecida pelo nevoeiro numa corrida pausada
à medida da sua idade. Pousou o balde de rolão e água que trazia na mão. Virou
de fundo para o ar o barreleiro, vazio, de vime com casca. Sentou-se, cansado
de um cansaço de muitos, muitos anos. Inspirou fundo. Olhou para fora pela
abertura da porta estreita e baixa e contemplou a névoa a acariciar o cume da
montanha da banda de além. Ao som absortivo das gotas de chuva, a baterem na
folha de zinco que cobria parte do chiqueiro, mesmo ali ao lado, feito a bloco
por afagar, tirou do bolso do casaco gasto pelo trabalho um pero domingos
de casca reluzente. Saboreou-lhe o cheiro. Descascou-o com o canivete desgastado
que o acompanha desde moço. Cheirou-lhe o sabor enquanto ouvia o ploc ploc da
chuva na folha de zinco, ou, de quando em vez, o chu chu da chuva levada pelo
vento. E assim ficou absorto em pensamentos de uma vida e em sensações do
momento.
Arrumou
a tarimba de semilhas, batata-doce, laranjas e peros. Boas para um lado,
semenas para outro. As pimpinelas eram muitas, treparam paredes e cobriram o
telhado. Fartura dos últimos meses chuvosos. Todas boas, as pimpinelas, mas
separou as tenras das rijas. Pegou em duas batatas-doces semenas e em duas
pimpinelas rijas e em nenhuma semilha, migou-as e deitou-as no balde com o rolão
e a água: boragem feita, última refeição do dia do seu porquinho desta Festa.
Antes
de sair da loja mirou as laranjas e os peros, e ideou a sua lapinha em escadinha
sobre a cómoda do seu quarto. Mirou também o resto da tarimba e saiu para o
chiqueiro levando na boca o cheiro de uma fatia de pão caseiro embebida em
molho de carne de vinha d’alhos e frita em banha de porco, guarnecida, claro,
com batatas-doces, semilhas e pimpinelas cozidas.
