Medida à medida
(Publicada nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 19-09-2008)
"Pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medido." (Mt 7, 2). Os holofotes da opinião pública (o.p), sempre à espreita e ávidos de novidades para criticar, ajuízam em medidas (med) ao gosto dos feitios do freguês. Os juízos neste mundo geralmente baseiam-se mais na ligeireza dos sentidos do que na reflexão baseada na dúvida e liberta de crenças. Ao viver em grupo somos ajuizados constantemente pelo que proferimos, pelas nossas acções, pelo traje e adornos que usamos, pela apatia de não ajuizar, e até pelo que não fazemos. O Homem educa-se ao longo da vida para esses juízos de forma a não se deixar agrilhoar pelo medo ou pelo ódio. Deixar-se agrilhoar é ficar privado, é ver a liberdade e a paz de espírito voar ao longe na linha do horizonte. Em situações de maior vulnerabilidade, por exemplo, o pensamento deixa-se impelir pelo medo e pelo ódio ampliando as med dos juízos. Uma mente, aberta ou fechada, pode muito bem deixar-se enrolar pelo imbróglio da o.p. No ajuizar e ser ajuizado ninguém ganha se não basear o seu juízo na dúvida livre das convicções e na solidária abertura do espírito em aceitar o outro, mesmo discordando. Usamos a med certa nos juízos? É possível quantificá-la, objectivá-la? Não me parece. Na psique humana o que se julga ser objectividade interpretativa vagueia muito na labiríntica subjectividade do universo psíquico de quem interpreta. A med que se usa para ajuizar é gerada na imprecisão dessas subjectividades interpretativas da psique e segundo a interferência de factores diversos. O Baptista, muito crítico, recebeu pelo que proferiu a sua med: foi decapitado. O Mestre (M) usou a parábola para contar as verdades, se proteger e proteger seus amigos. O M avivou para a libertação das algemas do ódio e do medo como preparo para o Seu reino. Depois de detido e ao longo do Seu julgamento foi cuspido, insultado, agredido por apenas querer iluminar o caminho e abrir a fonte da água da vida que poucos, na altura e hoje, entendem. O M não roubou nem matou. Porque foi tão grande a sua med? Recebeu com compaixão a med do seu julgamento, da rejeição social e da rejeição dos seus amigos. Não reclamou, não gemeu, não pediu misericórdia. Sujeitou-Se mansamente ao julgamento e decaiu como toda carne. Transtornado, um dos seus amigos negou-o por três vezes, recebendo também a sua pesada med. Outro, não prevendo o final trágico da sua traição, a sua med também recebeu. O grupo dos treze desfez-se, mas o M Homem superou com mestria o peso dessa med - eis uma lição. Altruísto Demócritus (AD), emigrante heleno, armado em herói, tipo banda desenhada e ingenuamente querendo comparar-se ao Baptista, quis provar a sua erudição democrata opinando (...). Emudeceu, deixou de ter garganta. A o.p não esperou, rapidamente, como o salto rápido de um bichano para não deixar fugir a sua presa, o ajuizou. AD usou uma med para medir seus irmãos de carne, de alma e de espírito e recebeu em troca outra tão ou mais pesada, ajoujando o seu intelecto. AD foi empacotado na med que ele próprio usou para empacotar. Sentiu nas entranhas psíquicas a estranha sensação da fluida salsada da o.p. Ao contrário do M, AD reclamou, gemeu, esperneou, pediu misericórdia. À semelhança dos discípulos ostracizou e lenta foi a árdua caminhada da libertação dos grilhões do medo e do ódio. No momento em que a sua consciência lhe pedia paz e discernimento para dar a outra face, como o M, desembainhou e empunhou a espada contra o inimigo, cortando e ferindo todo o ar vazio à sua volta. AD, com a lucidez turva, viu fechar o jorrar da água da vida e a janela da luz da razão. AD encontra-se agora em retiro, algures. Alterna o seu dia a cheirar a maresia trazida pelo vento e a contemplar flores na calma de um outro jardim, longe da urbe, à guarda de um Anjo chamado Miguel. Passados estes meses uma questão o perturba: será a medida de lá mais pesada que a medida de cá?. PS. Foi um prazer e uma honra partilhar opiniões convosco.
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