segunda-feira, 21 de abril de 2008

Porque não a reforma aos 69?

Porque não a reforma aos 69?
(Publicada nas
Cartas do Leitor do Diário de Notícias da Madeira em 01-03-2005)

Ao olhar para algumas muralhas e casas em pedra encontro nelas uma deixa do meu avô Manuel Cambado, pedreiro que trabalhou de sol a sol por quase toda a Ilha da Madeira a aparar, a aprumar, a alinhar o basalto bruto domesticado pelo marrão, pelo malho e pelo martelo (atenção, não sou comunista!). O mesmo não posso dizer da minha avó Henriqueta, já que a perenidade do material do seu ofício pouca deixa me legou, era costureira. Do meu avô Manuel Nabo, pedreiro também, apenas vejo alguma das coisas que fez no domesticar do basalto. Morreu, tinha eu três anos aproximadamente. Da minha avó paterna, Vitorina de Jesus, quase nada sei, morreu muito jovem, tinha meu pai três anitos. Da sua madrasta, avó Rosa, sei que trabalhava sol a sol nos afazeres domésticos e agrícolas para ajudar a sustentar 10 filhos, quatro dela e 6 da minha avó Vitorina. Quando a avó Rosa morreu não fui ao seu funeral, estava muito ocupado a trabalhar para o meu desejado “canudo”. Meu avô Manuel Cambado morreu com 81 anos. A minha avó Henriqueta morreu com 89 anos. Meu avô Manuel Nabo morreu com 70 anos provavelmente, não sei precisar a idade. A minha avó Vitorina morreu jovem. A minha avó Rosa não chegou aos noventa. Manifesto assim o respeito e admiração dos meus queridos entes da terceira idade (foi assim que os conheci, na terceira idade) e serve como aperitivo para o péssimo cozinhado que vem aí dos dois maiores partidos políticos do nosso pais: combater a “evasão fiscal” dos idosos, prolongando, prolongando, prolongando… Fiquei desiludido com as ideias do José Sócrates e do Santana Lopes em prolongar a vida activa e a idade da reforma para os 68 anos. Ou será 70? Desiludido porque a terceira idade, aquela que conheço, merece ser respeitada e já trabalhou o suficiente, provavelmente mais do que devia. A terceira idade não pode ser o bode expiatório da má gestão da segurança social nos últimos anos e da ineficácia no combate à evasão fiscal. Não obriguem a terceira idade a morrer a trabalhar para remendar o tão falado défice que sinceramente já não convence ninguém, lambuzado e sem sabor de tanto ser usado para justificar o injustificável! Obriguem sim, os oportunistas sem consciência social a pagarem o que devem! Estou disponível (atenção mais uma vez, não sou comunista!), e provavelmente muitos portugueses, para abdicar de aumento salarial pelos anos que quiserem desde que me seja dada a garantia que os avós portugueses terão uma reforma digna.

J. B. Corte

1 comentário:

Rui Caetano disse...

É, na verdade, uma reflexão pertinente, e tem razão nos seus argumentos. O problema é o que fazer com a falta de verbas da segurança social?